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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Demian - Hermann Hesse

Título: Demian

Autor: Hermann Hesse

Tradutor: Ivo Barroso

Editora: José Olympio

Edição: 46ª 

Ano da edição: 2015 

Ano da publicação original: 1919

Páginas: 196




Hermann Hesse é um daqueles nomes que vez em outra você: (1) ouve os amigos idolatrarem no barzinho, (2) anota no celular para buscar na Internet depois e (3) acaba, para infortúnio tão somente seu, deixando que tudo caia no esquecimento. Como se o destino, porém, decidisse que esse fluxo contínuo estava ultrapassado e que já estava mais do que na hora de eu conhecer a literatura do Hesse, um dos seus livros caiu nas minhas mãos em forma de cortesia. Não resistindo a tentação que se fazia viva diante de mim, dei uma pausa nas outras leituras e iniciei Demian que, ainda que "pequeno" quanto ao número de páginas, fez-se gigante em minhas mãos.

No fim da I Guerra Mundial o escritor alemão Hermann Hesse (1877 - 1962) publicou Demian, livro que escreveu entre os meses de setembro e outubro de 1917. Logo após, durante a Segunda Guerra Mundial, Hesse foi expedido para a cidade de Berna, onde trabalhou com prisioneiros de guerra. Nessa época Hesse passou por uma crise existencial que somava tormentas passadas de sua vida como a morte de seu pai, a doença grave de seu filho e demência de sua esposa. Por conta disso, Hesse foi exonerado e forçado a passar por terapia psiquiátrica. Nas sessões psiquiátricas, o seu analista, Carl Gustav Jung, o fez descobrir um mundo totalmente novo.

Carl Jung influenciou Hermann que, por sua vez, fez com que essa influência reverberasse em Demian, onde diversos conceitos e ensinamentos aprendidos com Jung se fazem presente. Na primeira edição da obra, Hesse se utilizou do pseudônimo Emil Sinclair para publicar seu livro, sendo que Sinclair também é o protagonista da história, o que dá a obra características autobiográficas, visto que Sinclair, como Hesse, inicia um caminho de dualidades que culminam com a descoberta de si. Desde as primeiras páginas, a história descreve a dualidade entre os mundos da "luz" e da "escuridão", deixando claro que, no início, Sinclair pertence exclusivamente ao mundo da luz e da religião, embora o mundo da escuridão esteja sempre a espreita, observando Sinclair de longe.
“...podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.”
Na escola, Sinclair conhece Max Demian, companheiro de sala de aula que, após proteger Sinclair de sofrer bullying, estreita cada dia mais os laços de amizade entre os dois personagens. No decorrer da história, Sinclair começa a experimentar uma espécie de idolatria por Demian, que tem, por sua vez, uma grande influência sobre Sinclair por causa de sua personalidade observadora e perceptiva, sempre oscilando entre o bem e o mal, a luz e a escuridão. A obsessão por Demian não chega a ser a nível de romance, mas dada a influência que Demian tem em Sinclair, tomei a liberdade de classificar a relação dos dois como um bromance de extrema importância para o desenvolvimento pessoal de Sinclair.

Demian é um romance rico em conceitos provenientes da psicologia analítica de Jung, caracterizando-se como um Bildungsroman, romance em que são expostos processos de desenvolvimento físico, psicológico ou moral. A narrativa orienta jovens nos seus tempos de busca, nas suas perguntas não respondidas e nas suas inquietações. Hesse nos introduz a um mundo de auto-conhecimento, onde os fins espirituais são o eixo que rege o romance. A história, além de ser explicada ou analisada, deve acima de tudo ser visualizada como uma série de transformações em Sinclair que o levam a quebrar a sua casca para alçar voo, ou seja: deve ser entendida como sendo a própria história do homem.

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