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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

A geração dos chatos ou a geração das pessoas que não podem mais chatear sem serem chateadas

A "nova geração", chata tanto nas redes sociais quanto fora delas, impôs uma série de restrições no discurso alheio que até ontem pareciam não estar aqui.

Não se pode mais fazer piada envolvendo a cor do amiguinho negro sem ser chamado de racista. Não se pode mais embebedar a coleguinha na festa para tirar proveito dela sem ser chamado de estuprador e machista. Não se pode mais vomitar impropérios sobre os homossexuais pois agora a "bicharada" cai em cima criticando e, que disparate!, colocando uma mordaça na sua liberdade de expressão. 

A geração que ficou chata ou a geração do "mimimi", como gostam de chamar alguns, deixou difícil a tarefa de propagar comentários intolerantes, piadas homofóbicas, brincadeiras machistas e atitudes racistas sem que o propagador das ofensas sofra alguma crítica ou represália. Diante desse impedimento, o de ofender livremente sem ser criticado de volta, machistas, racistas e homofóbicos se juntaram numa reunião extraordinária e chegaram a uma única conclusão: essa geração é chata.

Não sabiam, porém, que a situação já estava chata há muito tempo.

No ensino fundamental, já era chato os coleguinhas de classe escrevendo "viado" na sua carteira e impedindo  a sua passagem no corredor da escola sob o argumento de que você não poderia passar porque era "bichinha". Já era chato ter que acordar todo dia e ir para a escola sabendo que você seria alvo de piadinhas e agressões homofóbicas. Já era chato chegar em casa frustrado por causa da homofobia tão forte no ambiente escolar e não ter com quem desabafar por causa da homofobia presente no seio da família.

Na pré-adolescência, já era chato ver as meninas aprendendo que deveriam olhar sua sexualidade com maus olhos enquanto os meninos deveriam celebrar a sua. Nas reuniões de família já era chato ouvir os pais dos meninos dizendo que os pais das meninas deveriam prender suas "cabritinhas" pois os "bodes" estavam à solta. Na vida adulta já era chato se casar acreditando que você era propriedade do marido porque você foi ensinada desde cedo a acreditar nisso. Em geral, já era chato ser agredida, humilhada e tolida por ser mulher.

Já era chato as pessoas te olharem com receio e atravessarem a rua por causa da sua cor, como se automaticamente todo negro fosse bandido. Já era chato ter que ouvir piadas racistas na escola todos os dias e ter que retribuir as ofensas com um sorriso amarelo para não dar uma de "chatão". Já era chato ir ao shopping e, ao entrar nas lojas, observar que o segurança sempre estava atrás de você, acompanhando os seus passos. Já era chato ouvir que o seu cabelo não era apresentável e que você deveria alisá-lo, cortá-lo e negar a sua liberdade de escolher entre permanecer com os seus cabelos naturais ou não.

A chatice não é de agora e não é exclusividade dessa geração.

Há uma onda de chatice desde muito tempo e essa chatice vem deixando suas marcas e abrindo suas feridas desde então. No entanto, a chatice e as ofensas também tem feito com que bocas, até antes caladas, começassem a falar. A chatice dos preconceituosos continua, mas agora batem de frente com as "chatas" vozes dos que antes se silenciavam, não mais. 

O mundo está ficando chato, concordo, mas para aqueles que querem ofender e perpetuar os seus preconceitos sem terem seus discursos desconstruídos e suas ignorâncias denunciadas.

2 comentários:

  1. Engraçado que para os propagadores de discurso de ódio é muito fácil chamar quem resiste de mimizento, quando o que eles fazem vai muito além de uma chatice que irrita, é violência verbal e física, contra a liberdade e cultura de muitas pessoas. Os que chamam esta de geração do mimimi não fazem ideia do que é viver do lado de cá, sendo parte da voz chata a apertar sempre a mesma tecla quase sempre, mesmo que o mundo esteja mudando, repreendida dentro da própria família e entre aqueles que se dizem amigos. Não sabem ou não se importam com o quanto é difícil se manter firme em sua luta, seja pessoal ou de militância, quando tudo e todos estão prontos pra te silenciar. Talvez os "chatos de sempre" estejam agora provando um pouco do próprio veneno, mas é uma pena que ele não faça jus à realidade das ditas minorias.
    O mundo está mudando mas tomara que saibamos que a mudança ainda não é suficiente, que é preciso mudar mais.

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  2. Parabéns pelos argumentos, esse texto é de utilidade pública, tão necessário que eu espero que você não tenha se importado por eu ter compartilhado em meu Facebook.

    Eu também sou a chata feminista aqui em casa, e acredito que é tudo uma questão de lugar de fala; enquanto esses que acham que essa geração está chata não passar pelo que as minorias passam, eles nunca saberão o quão chatos são.

    Mais uma vez parabéns pelo texto.

    Beijos, Hel - Leituras & Gatices

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