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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

O ato e o fato - Carlos Heitor Cony

Título: O ato e o fato - O som e a fúria que se viu no Golpe de 1964 

Autor: Carlos Heitor Cony 

Editora: Nova Fronteira

Edição: 9ª 

Ano da edição: 2014 

Ano da edição original: 1964 

Páginas: 224






No prefácio da nona edição de "O ato e o fato", constam as seguintes palavras de Luis Fernando Verissimo: "Hoje, um golpe como o de 1964 parece tão improvável quanto a volta dos bondes à Siquera Campos." Não imaginava Verissimo que, ao escrever esse prefácio para a obra de Cony em 2004, mais uma vez veríamos a palavra "golpe" em discussões inflamadas em mesas de bar ou, como chamamos o boteco da modernidade, em redes sociais. Nós, como que assistindo a um jogo de futebol, acompanhamos a direita e a esquerda política se estranhando nas ruas, se ameaçando na Internet e realizando manobras que assustam. Assim, temos a impressão de que já assistimos essa mesma história antes.

A derrubada do governo de João Goulart instituiu a República Militar no Brasil em 1964, república que bateria de frente com as liberdades democráticas e que viria a impôr um modelo econômico concentrador de rendas e aberto ao capital internacional (norte-americano, para ser mais específico). Em "As Veias Abertas da América Latina", Galeano fala da influência norte-americana na instauração da ditadura no Brasil. Movidos pelo receio de que as medidas dos antigos presidentes transformassem o Brasil em "outra Cuba", os Estados Unidos apoiou um regime que por vinte e um anos traria vida boa para poucos às custas do sacrifício de muitos. 

Como aprendemos nas nossas aulas de história, embora ultimamente algumas pessoas tenham apresentado uma amnésia coletiva, nem todos cruzaram os braços e debruçaram-se sobre os parapeitos de suas janelas para tranquilamente verem a banda passar. Dentre os que se utilizaram do poder de suas vozes, algumas até então nunca usadas para fins políticos, estava o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Após acompanhar de perto a derrubada do governo de Goulart em 13 de abril de 1964, Cony escreveu a crônica "Da salvação da pátria" para o Correio da Manhã, que figuraria entre as pouquíssimas opiniões públicas contrárias ao golpe que se instalava no país. 
"Não vejo razões para o Medo. Respeito o Ódio, aceito o Amor, mas sempre desprezei o Medo. Compreendo a prudência de uns. Acho natural o pânico de muitos: aqueles que não estavam, realmente, preparados para assumir a Responsabilidade. E, entre os apavorados, há o imenso escalão de corruptos e oportunistas que iam nas águas de um movimento libertário, mas com instintos liberticidas ou propósitos carreiristas." 
Carlos Heitor Cony escreveu crônicas que atravessaram as fronteiras e se tornaram quase que um código entre os que eram contra ao regime vigente. Os escritos de Cony também lhe renderam um processo frente ao Ministério da Guerra sob a acusação de "criar animosidade entre civis e militares", o que, por coragem extrema ou impulso patriota, não impediu que o escritor parasse. Vítima de constantes ameaças de morte, Cony teve uma primeira parte de suas crônicas reunidas e publicadas em 64 sob o título de "O ato e fato" e a outra, um tempo depois, sob o título de "Posto Seis". As duas obras hoje se apresentam como apenas uma, a que resenho aqui: "O ato e fato: o som e a fúria que se viu no Golpe de 1964." 
"Não vou defender o regime do sr. Fidel Castro. Mas em Cuba, onde a Revolução foi muito mais radical, os réus tiveram direito a um julgamento, embora sumário e emocional. Na Revolução Francesa, na Revolução Russa, o tribunal não foi abolido e o direito de defesa ou de processo foi respeitado, embora formalmente. Pois no Brasil de 1964 não se respeita nada. Cassam mandatos sem que os réus tenham a oportunidade de abrir a boca. Suspendem direitos políticos e nem os punidos sabem por que crime, por que omissão ou ação perderam seus direitos." 
Em virtude da instabilidade política e constante mordaça que a todo custo alguns setores da sociedade tentavam lhe colocar, Cony encerrou as crônicas políticas, mas não encerrou sua luta, tendo sido preso diversas vezes, sendo uma delas por ter feito parte de uma manifestação que ficou conhecida como "Oito da Glória". A série de fatos políticos que cruzaram a vida de Cony marcou a vida do escritor e fortemente influenciou suas obras, pois em seguida publicou "Pessach: a travessia" sobre a luta armada contra a ditadura e "Romance sem palavras", que também apresenta personagens envolvidos na luta armada contra o regime militar.

A extrema direita brasileira, porém, continua a mesma. Chico Buarque recentemente foi acuado por aqueles que desconhecem o significado de democracia e teve sua volta para casa interrompida para ser questionado sobre suas opiniões políticas — algo que aconteceu com Caio Fernando Abreu no regime militar, mas infelizmente Caio teve um destino mais violento. A extrema direita brasileira ressuscita demônios de antigamente. Através de manobras no congresso mais de 50 anos depois da instalação do regime militar, a extrema direita mais uma vez tenta tirar na marra um governo populista, como aconteceu em 64, o que torna os textos de Cony obrigatórios para que possamos entender que a história, se não tomarmos partido e irmos à luta, está fadada a se repetir.

2 comentários:

  1. Essa história do Chico Buarque também me deu um medo, sabe? É como se nos preparássemos pra outra ditadura, onde ninguém pode ter posição política diferentes de alguns senão o pau come.

    Já isso do Caio Fernando Abreu eu não sabia de nada, o que aconteceu?

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  2. É um tanto desesperador ler sobre as barbaridades que as pessoas soltam pela boca nesses nossos dias. Às veze me pego pensando se tem como o desejo dessas pessoas acontecer e o que seria da gente se a resposta for sim. E se nós temos esses questionamentos, imagine como é pra quem viveu o golpe ou a sombra mais próxima dele ver o que tá acontecendo. Deve ser uma ótima pedida de leitura O Ato e o Fato.
    Abraço!

    Ps: mudei um tiquin: http://semfloreio.blogspot.com

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