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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

As Veias Abertas da América Latina - Eduardo Galeano

Título: As Veias Abertas da América Latina

Título original: Las Venas Abiertas de América Latina

Autor: Eduardo Galeano

Ano da edição: 2010

Ano original de publicação: 1971

Páginas: 392

Editora: L&PM

País: Uruguai





Desde a época mais remota do meu ensino médio que os meus caminhos impreterivelmente me levavam ao Eduardo Galeno, fosse através dos discursos inflamados dos professores de história do cursinho pré-vestibular ou por meio de trechos de livros do escritor que eu lia em comunidades do finado Orkut — que descanse em paz ao lado do MySpace e Flogão, amém. As palavras do Galeano tanto me perseguiam que quando me cadastrei no Skoob logo marquei "As Veias Abertas da América Latina" como meta de leitura. No final de 2015, ano marcado pela morte do autor, constatei que já passava da hora de eu conhecer a escrita do intelectual uruguaio. Sendo assim, dei meus primeiros passos em 2016 lendo uma obra escrita há mais de quarenta anos atrás, mas que não poderia estar mais atual.

"As Veias Abertas da América Latina" é um relato da história do continente latino americano e do maltrato que o nosso continente sofreu nas mãos do imperialismo europeu e norte-americano. Na época da chegada de Colombo, o total de índios nas Américas era algo em torno de 70 e 90 milhões de pessoas, um século e meio depois, após conflitos com o invasor, trabalho escravo e o contato com as doenças dos europeus, o número de índios foi reduzido para 3,5 milhões. Já em épocas não tão distantes, os Estados Unidos mostraram-se os maiores saqueadores das nossas terras através do apoio financeiro dado às ditaduras militares que, em troca, deram aos norte-americanos regalias econômicas e acesso às nossas matérias-primas. No final, exportávamos açúcar para importar caramelos. 
"A divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se lançaram pelo mar e lhe cravaram os dentes na garganta."
Após a publicação da obra, Eduardo Galeano viu seu livro ser censurado no Uruguai, Chile, Argentina e Brasil sob a justificativa de que as palavras do autor poderiam corromper a juventude. O autor comentou, porém, após oito anos da publicação de sua obra, que mesmo em face das proibições as respostas mais estimulantes ao seu texto não vieram de críticos famosos, mas das pessoas do povo, que arriscavam-se a ler clandestinamente trechos de sua obra em viagens de ônibus para todos os passageiros ou fugiam do Chile com o seu livro escondido. Uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisas Ipsos MORI no ano passado constatou que o Brasil é o terceiro país mais ignorante do mundo, mas dado o esforço que os que estão no poder sempre empregaram em alienar a população, não é de se espantar que o Brasil figure no podium desse ranking.

A obra "As Veias Abertas da América Latina" é como um grito dado por Galeano que acabou sendo escutado por interessados na história de uma América muito obscurecida, mas que ia sendo introduzida em nosso país há algumas décadas. Alguns podem dizer que o texto apresenta um ar vitimista dado o caráter acusador que possui, mas é importante entender que, acima de tudo, a obra ressalta o quanto o interesse estrangeiro na América Latina a fez sangrar e lhe deixou feridas irreparáveis. Na época em que escrevia o livro, Galeano sofria as consequências da ditadura no Uruguai, portanto, mais do que um livro de cunho político, seu texto possui um sentimento de revolta explícito em cada sessão, revolta contra o imperialismo, a exploração das inúmeras famílias latino americanas e as injustiças sociais resultantes de políticas capitalistas.
"Há quem acredite que o destino descansa no joelho dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre as consciências dos homens." 
A mais importante lição que o livro do Galeano deixa ao leitor é a de que, ao conhecer o lado obscuro da nossa história, a gente consegue se prevenir de cometer os mesmos erros do passado, enquanto que a mais importante ação que a obra provoca no leitor é quando o força a pensar criticamente sobre as variáveis envolvidas na economia do seu país e sobre os jogos políticos que sempre culminam em mais um peso extra nos ombros do trabalhador. No ano de 2015, pela primeira vez, a corrupção foi vista como o maior problema do país pelos brasileiros. Assim, depois de décadas de uma hemorragia que não cessa, parece que estamos aos poucos ligando os pontos e entendendo que não é o Bolsa Família que quebra a economia do país, mas sim os senhores de terno e colarinho branco que no Brasil (e no resto da América Latina) impedem que o sangramento das nossas veias abertas cesse.

Um comentário:

  1. Livro interessantíssimo. Você viu que o Eduardo falou que escreveu o livro pro povo? Ele não aguentava mais ver livros de política cheio de palavras difíceis e decidiu escrever algo mais acessível, acabou que ele escreveu esse livro e virou essa obra-prima.

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