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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Howl and Other Poems - Allen Ginsberg

Título: Howl, and Other Poems

Autor: Allen Ginsberg

Ano: 1956

Ano da Edição: 2015 

Idioma: Inglês

Editora: Martino Fine Books

ASIN: B015FYR1GG

Páginas: 87





A publicação de "Howl and Other Poems" em 1956 deu visibilidade a um movimento de escritores que em breve seria conhecido no mundo inteiro como a Geração Beat. No meio da intensa atmosfera cultural norte-americana dos anos 50, onde juntos fervilhavam jazz, drogas, liberdade sexual e longas viagens feitas a base de caronas, Allen Ginsberg emergiu como o poeta visionário fundador de uma geração que inspirou a contracultura americana da segunda metade do século XX. Ao escrever o poema "Howl", tido como uma das grandes obras da literatura norte-americana, Ginsberg quebrou a barreira invisível que definia padrões literários e ditava regras de comportamento, influenciando, assim, as outras gerações que se seguiriam.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, veteranos de guerra voltavam para o lar de suas famílias e vidas nos subúrbios norte-americanos, casando-se e começando a viver o sonho americano que tanto sufocava Laura Brown em "The Hours" (2001). Do outro lado, estava uma juventude com nada a perder, vivendo no limite da vida e ansiando abrir os braços e voar através do tempo e espaço, buscando encontrar espiritualidade e libertação, e, acima de tudo, querendo ganhar algum dinheiro, comprar algumas bebidas e transar bastante.

O fim da Segunda Guerra levou escritores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs a se questionarem sobre o que era visto como padrão na sociedade, especialmente nos campos da política e cultura. O interesse em mudar a consciência e desafiar a escrita convencional os levou a diferentes níveis de experimentação literária e pessoal. A Geração Beat se destacava por travar uma batalha contra o conformismo social e os padrões literários, incentivando, assim, uma ruptura dos valores tradicionais. Enquanto os Estados Unidos caminhava em direção a calmaria, o movimento beat criava tornados e os lançava na direção dessa sociedade padronizada. 

Considerado um dos primeiros trabalhos preliminares da Geração Beat, "Howl" era um apelo desesperado em uma época atormentada pela intolerância bem como uma canção de libertação. O estilo escolhido por Ginsberg soava casual e amador para muitos dos poetas tradicionais da época, fazendo com que as críticas em cima de sua obra fossem ferrenhas. Em "Howl", que mais tarde se uniria a outros poemas para se tornar "Howl and Other Poems", Allen fala sobre uma parte da sociedade que se opõe ao consumismo americano do seu tempo. Ginsberg e suas posturas pessoais e políticas exibidas em seus textos danificavam as sensibilidades morais do público em geral - e ele logo viria a saber disso.

"Howl" é divido em três partes e 112 linhas, sendo as linhas tão longas que se assemelham a um parágrafo. Ginsberg queria que cada linha fosse lida numa única respiração para que ao final da leitura de cada linha o leitor ficasse sem ar. Ao usar diferentes padrões rítmicos, "Howl" transporta o leitor em um constante movimento, ainda que nenhum lugar seja mais mencionado no texto do que a cidade de Nova York. Na cidade que nunca dorme, viajamos pelos metrôs, bares, lanchonetes, apartamentos apertados e becos escuros, onde homens com seus furtivos encontros sexuais tentam escapar da polícia.

"Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura,
      morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
      em busca de uma dose violenta de qualquer coisa."

Ao escrever "Howl", Ginsberg não poderia imaginar a confusão que seu livro causaria na opinião pública. Como depois confessou em entrevistas, o autor jamais esperaria que o poema fosse ser publicado e, somente por isso, ele o escreveu com total liberdade, sem preocupações quanto ao uso da linguagem, das imagens sexuais e das alusões ao uso de drogas presentes no texto. Ao abordar temas até então considerados tabu como homossexualidade e consumo de drogas, "Howl" atraiu uma grande quantidade de críticas, motivando um processo por obscenidade contra Ferlinghetti, dono da City Lights Bookstore, editora que publicava nos EUA a coletânea que continha o poema.

Ainda que alguns tenham especulado se o livro faria todo o sucesso que fez se o julgamento por obscenidade não tivesse acontecido, visto que na época o livro virou o centro das atenções, é indiscutível que “Howl” tenha aberto portas para outros escritores da Geração Beat, tanto que em 1957 Kerouac publicaria "On the Road" e, em 1959, Burroughs publicaria "Naked Lunch". A obra de Ginsberg virou notícia e polêmica por causa do julgamento, mas o mais importante foi que sua poesia e sua vida se provaram influentes em gerações posteriores. Ginsberg foi a cola que contribuiu para aproximar toda uma geração de artistas, ativistas e escritores. E "Howl" foi o uivo que uniu essa alcateia.

Em 2010, Jeffrey Friedman e Rob Epstein transformaram "Howl" em filme, mesclando na história a declamação do poema em um dia histórico para Ginsberg em São Francisco, a vida do próprio poeta, interpretado por James Franco, e o julgamento por obscenidade movido contra o editor da City Lights Bookstore. No Brasil, a obra foi traduzida por Claudio Willer e publicada pela L&PM Editores, de onde o trecho traduzido utilizado nessa resenha foi extraído. Dada a exposição do seu trabalho no mundo inteiro, Allen Ginsberg fez legiões de leitores pararem e pensarem sobre a insanidade resultante de uma sociedade que valoriza o sucesso e prega o consumismo sob a bondade humana e a solidariedade. Ginsberg, sem dúvida, deveria concordar com Chaplin: "mais do que máquinas, precisamos de humanidade."

19 comentários:

  1. Ótima resenha, Elder. Acho engraçado estas situações em que as pessoas acham que não vai dar certo e do nada acontece. Imagina a cara dele, já q achava que não ia publicar o texto... rsrsrsrs... Vim retribuir sua visita ao meu blog, obrigada! Gostei muito do seu e vou acompanhá-lo... hehehe

    livros terapias / Fan page

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    1. Eu achei sensacional, o problema é que quando você lê da primeira vez você pode se perder, pois afinal o nível dos devaneios acabou ficando muito pessoal e íntimo, então logo depois que li Howl, fui atrás de artigos que explicassem linha a linha do poema, o que é minha parte preferida, pois me sinto numa busca ao tesouro.

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  2. A história é maravilhosa mesmo, pena que não sei inglês senão eu leria com certeza!
    Aliás, o tema da minha prova de hoje deriva justamente disso, segunda guerra mundial, revolução francesa, americana, etc.
    Beijos. ♥

    Diário da Lady

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    1. Não seja por isso, Leidiana, a L&PM já lançou em português há anos e se chama "Uivo".

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  3. Olá, tudo bem? Primeira vez aqui. =)
    Não conheço muito o mundo da poesia, mas achei super interessante o tema e o contexto desse livro. Ótima resenha.
    Beijos,

    Priscilla
    http://infinitasvidas.wordpress.com

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  4. Fazia tempo que eu não vinha no teu blog e fico toda besta lendo tuas resenhas maravilhosas, mano, você está sempre de parabéns!
    Eu não conhecia essa obra e só tinha ouvido falar da geração beat só por nome mesmo, agora pude entender melhor do que se tratou, eu adoro quando tu apresentas o contexto histórico das coisas, enriquece ainda mais tua resenha.
    Poema não é muito minha praia, não sei, não consigo estabelecer aqueeela conexão. Mas quem sabe dessa vez vai, uh?
    Que bom que a LP&M lançou no Brasil.
    Parabéns pelo ótimo texto!

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    1. Eu diria que poema é tua praia sim, pois no final do dia você acaba vendo poemas de outras formas e de outros jeitos em textos que tu lês. No mais, obrigado pelas palavras tão carinhosas, Juliana.

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  5. Oi, Elder!
    Eu não conhecia esses poemas (não é meu estilo literário favorito), mas fiquei interessada pelas histórias abordadas.
    Foi uma aula de literatura, pois não conhecia essa Geração Beat
    Beijos
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    1. Eu meio que tô fazendo um temporada especial da Geração Beat no blog, Luiza, fica de olho! Já tô lendo On the road e já até comprei Naked Lunch na Amazon pra lê-lo também e resenhá-lo! Se quiser saber mais, fica atenta ;)

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  6. Oi, Elder. Howl, and Other Poems me interessou quando descobri que se tratava/referia a assuntos da Segunda Guerra Mundial. Gostei bastante na liberdade que o autor usou para escrever esta obra, só assim Allen Ginsberg não seria influenciado por outros tipos de mídia para mudança do seu estilo de literatura.
    Blog: Consumidor de Sonhos | consumidordesonhos.blogspot.com.br
    Pesquisa de Opinião!

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    1. Entãããão, não se trata exatamente de assuntos da Segunda Guerra Mundial, mas o contexto pós-guerra influenciou a sociedade americana que influenciou a escrita e o "uivo" do Ginsberg, por assim dizer.

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  7. Incrível sua resenha.
    É engraçado como os temas 'polêmicos' conseguem popularizar as coisas.
    Parece ser algo bem interessante e curioso de se ler, afinal, 'coisas polêmicas' sempre geram uma curiosidade maior.
    http://letrasfloresecores.blogspot.com.br/

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    1. O polêmico Madame Bovary do Flaubert ficou famoso por isso, mas claro que o Flaubert era um grande escritor também, então o julgamento da sua obra só fez com que mais pessoas tivessem acesso ao que ele escrevia.

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  8. Oi Elder!
    Nunca li nada do Ginsberg, acredita? Dos Beats, o único que já li foi o Kerouac (e nem foi On The Road!)
    Gostei da contextualização histórica que você apresentou.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Eu tô lendo "On the road" agora e estou gostando. É um estilo que aprecio, calmo, livre, bem solto mesmo e acho isso sensacional.

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  9. Eu estava esperando que você fosse destrinchar o poema inteiro, mas ainda assim gostei da tua resenha. Eu já ouvi falar de muita gente que não gostou por não ter entendido o poema, o que faz sentido visto que como o cara não sabia se seria publicado, ele simplesmente escreveu sem se preocupar com a releitura do próximo, mas já li alguns sites que falam de linha a linha sobre o poema e achei o máximo. Não sei até quanto você se aprofundou na pesquisa sobre o Ginsberg, mas te recomendo fazer isso :)

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    1. Então, se eu fosse destrinchar eu praticamente pegaria as anotações que encontrei aqui em http://genius.com/Allen-ginsberg-howl-annotated/ e traduziria para o português, o que não acho que ficaria legal, mas vale a pena ler a explicação linha por linha do poema e depois relê-lo. Se você seguir esse fluxo, a leitura fica interessantíssima!

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  10. Olá! :)
    Primeiramente, eu queria expressar o quão feliz estou de voltar a ler seu blog - tive de fazer uma pequena pausa no meu, inclusive, graças ao vestibular e tudo mais. Sempre gostei do modo simples e sincero com que você tece as suas resenhas e desta vez não é diferente.

    Conheci Howl de uma maneira bem engaçada, através de um episódio daquela série antiga da MTV, Daria (sim, aquela mocinha de língua afiada que não hesita em dar respostas irônicas a quase tudo). No episódio em questão, ela é obrigada a prestar serviço comunitário em um asilo, lendo poemas para os idosos. Advinha só? Ela leva Howl para ler a uma senhora de nervos bastante fracos. Daria lê justamente o trecho "Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura", deixando a velhinha totalmente sem ar (literalmente!), sendo expulsa do asilo.

    A cultura beatnik sempre exerceu um fascínio em mim, talvez porque ela se insira em um intervalo entre o fim da 2a Guerra e a explosão do movimento hippie. Alguma coisa nas boinas pretas, nos poemas e no glamour deles chama a atenção de uma forma bastante sutil, se comparados com os modernos punks e góticos. Dito isso, estou com Howl e On The Road na minha (homérica) lista de leitura faz bastante tempo e estou determinada a lê-los ano que vem (ainda mais com toda a carga histórica envolvida).

    Um abraço,
    Clara
    labsandtags.blogspot.com

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    1. Clara, "Howl" e sua turma beat também tem um certo impacto em mim, principalmente porque acredito que eles influenciaram fortemente os movimentos sociais da década de 60 nos Estados Unidos e o movimento hippie. É tudo tão interessante e, infelizmente, verdade nos versos do Ginsberg se você considerar "mentes brilhantes" as pessoas que ele considera "mentes brilhantes" - eu acredito que são as pessoas que pensam fora da caixa.

      No mais, curto muito Daria e acho que é uma das séries mais underrated ever, sério, queria que mais pessoas assistissem :P

      Boa sorte nos resultados do vestibular! Gosto bastante de você porque você é assim tão nova e tão inteligente e talz que bate até uma inveja na gente hahaha

      Um abraço!

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