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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Sobre Fotografia - Susan Sontag


Título: Sobre Fotografia

Título original: On Photography

Autor(a): Susan Sontag

Ano da edição: 2004

Publicado originalmente em: 1977

Editora: Companhia das Letras

ISBN-13: 9788535904963

ISBN-10: 8535904964

Páginas: 224




Ao estabelecer um diálogo entre a filosofia e a fotografia em "On Photography"(1977), Susan Sontag, escritora e crítica de arte norte-americana, discorre sobre a história da fotografia ao tratar o fenômeno fotográfico como a ética do ver. A obra, constituída por seis ensaios sobre o poder da fotografia, sendo o mais notório intitulado "Na caverna de Platão", traça, entre outras discussões, um paralelo entre o mito da caverna e a maneira como a exploração da imagem tem impactado a sociedade. Difícil de ser lido sem um marcador de texto em mãos, "Sobre fotografia", título sob o qual a obra foi publicada no Brasil pela Companhia das Letras, desperta o pensamento crítico tanto em fotógrafos quanto nos interessados pela fotografia.

Em o mito da caverna, Platão estabelece uma metáfora que diz respeito à importância da educação como forma de superação à ignorância. De acordo com o filósofo grego, a realidade está no mundo das ideias e não no mundo das coisas sensíveis, tais como, por exemplo, as imagens. Utilizando-se dessa metáfora, a autora principia afirmando que, ainda que a sociedade esteja constantemente sendo bombardeada com meras imagens da verdade, não devemos entender a fotografia como uma extensão dessas imagens que a mídia com frequência nos presenteia, pois o olho que fotografa altera as condições de confinamento da caverna que é o mundo.
"Ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e sobre o que temos direito de observar."
Ao tirar uma foto, nas palavras da autora, o fotógrafo deve cultivar um interesse pelas coisas como elas são, sem interferência, pois fotografar é estar em cumplicidade com o que quer que torne um tema interessante e digno de se fotografar, ainda que este tema seja a dor ou a desgraça de uma outra pessoa. Susan enfatiza que entre o fotógrafo e seu tema tem de haver distância, pois a câmera não estupra, nem mesmo possui, embora possa atrever-se, intrometer-se, atravessar, distorcer, explorar e, no extremo da metáfora, assassinar.

Afinal, quando um fotógrafo escolhe não interferir no seu tema, ainda que este necessite de ajuda, ele se torna um cúmplice do sofrimento? Alguns afirmariam que quem nada faz em face da opressão automaticamente se posiciona ao lado do opressor e, desta forma, somos forçados a pôr nossos neurônios para trabalhar, o que deixa a leitura ainda mais prazerosa.

As imagens fotográficas possuem um importante papel de nos tirar da ignorância, pois elas nos mostram algo novo e podem desenvolver uma posição moral naqueles que as observam. A escritora menciona que, por serem fatias do tempo e não um fluxo, as fotos são mais memoráveis, diferentemente da televisão, onde cada imagem nova cancela a precedente. Assim, fotos como a do menino sírio afogado em uma praia da Turquia contribuem mais para aumentar o repudio público sobre a indiferença de alguns países a crise dos refugiados do que horas de barbaridades exibidas no telejornal noturno.

O catálogo catastrófico da desgraça também nos traz certa familiaridade ao horror, fazendo com que o que é horrível se torne cada vez mais comum, afirma Sontag. A autora, sem querer, talvez explique nessa afirmação a reação de milhares ao redor do mundo que se compadecem com o terror na França por ser algo novo, mas que não dão tanta atenção para atos de violência em países do oriente médio por infelizmente já terem se tornado comuns.
"Fotos chocam na proporção em que mostram algo novo."
Ainda que a fotografia traga luz para dentro da caverna, é importante entender que aceitar o mundo tal qual como a câmera o registra também pode ser uma forma de alienação. Nunca se compreende nada a partir de uma foto, menciona a autora, embora as fotos preencham lacunas em nossas imagens mentais.

Com afirmações em sua maioria nada poéticas sobre a fotografia, Susan resume a nossa sociedade a um consumismo estético onde tudo, mais cedo ou mais tarde, termina em uma foto. Assim, a fotografia pode, ao mesmo passo em que purifica, também ser a mais irresistível forma de poluição mental, dada a nossa dependência por imagens, que, novamente, nos traz para a condição de observadores de sombras refletidas na parede da caverna que é o mundo.

2 comentários:

  1. Leitura essencial para amantes de fotografia, mas não por trazer os clichês conceitos poéticos que circudam a arte e sim por despertar diferentes reflexões sobre os diferentes aspectos do fotografar.

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    1. Eu acho que o livro propõe debates interessantíssimos sobre fotografia! Depois que postei a o link da resenha no facebook, alguns amigos fotógrafos fizeram alguns comentários bem interessantes sobre a obra, o que me fez crer que a li no momento certo, visto de de 2014 pra cá o meu interesse em fotografia só tem aumentado :)

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