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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Para Onde Vai O Amor? - Fabrício Carpinejar

Título: Para Onde Vai O Amor?

Autor: Carpinejar

Ano: 2015

Páginas: 176

Idioma: Português

Editora: Bertrand Brasil

ISBN-13: 9788528620160

ISBN-10: 8528620166






No âmbito literário sempre tive uma pequena desavença com clichês - em especial os amorosos - até perceber o quão é complicada a tarefa de falar de amor sem ser ridiculamente brega, pois somos todos bem previsíveis quando o tema em questão é amar. "As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas", já disse Fernando Pessoa, mas o poeta português esqueceu de mencionar que, em efetivo, todo texto de amor tende a ser ridículo e inevitavelmente brega. "Para Onde Vai O Amor?" do Carpinejar não foge desse clichê romântico, que canta tão pueril no amor que vem, mas que ressoa tão bastardo no amor que vai. 

Há anos atrás reclamei desse clichê amoroso para o próprio Carpinejar, que, ao dar-se conta da minha mensagem, ao invés de me bloquear ou ignorar, pôs-se a me seguir no Twitter. Na época encarei a atitude um tanto quanto coibidora, mas depois de anos passei a interpretar a reação do autor mais como uma forma de dizer "um dia você vai me entender". O dia não apenas chegou, mas veio com dores e amores, uns amores que foram abruptos, umas dores que de teimosas ficaram, outros amores que ainda se demoraram e um amor que enfim decidiu ficar. No final das contas, acabei entendendo e peguei-me por diversas vezes imerso nos clichês do amor que o Carpinejar tanto fala nos seus textos.

É no vendaval do amor que vai, não do que fica, que habitam as crônicas de "Para Onde Vai O Amor?". E se tem um assunto difícil de ser discutido é este próprio: o de quando o amor acaba, pois ainda que na maioria das vezes se ganhe maturidade depois da fase de tristezas e choro, essa parte é sempre antecedida pelo desamparo característico que vem com o final. De uma simplicidade textual que apresenta as metamorfoses do amor até o seu esgotamento, a obra desperta um saudosismo típico naqueles que já amaram, saudosismo que pode trazer consigo tanto um sorriso no rosto quanto um remorso infernal, depende das experiências do leitor.

Ao destacar atitudes que com frequência desgastam relacionamentos, Carpinejar nos faz olhar para o nosso próprio passado e nos responde o porquê de não termos dado certo com alguém que um dia julgamos amar. Na crônica "Inconsciente Casados", o leitor se posiciona no centro do furação que são as brigas de casais e, nessa tormenta, acaba crendo que mesmo um casal que tanto briga também, a seu modo, se ama, e que um casal que busca a separação esquece que na maioria das vezes a desolação que vem com a ausência do outro é maior que a perturbação de sua presença. No final, não é que não se amem, é só que não sabem como se amar.

"A separação será incompreensível como a própria convivência. Porque são felizes em algum lugar desconhecido dentro deles."

Em "Não Subestime" encontrei as justificativas do amor que ultrapassa qualquer beleza superficial. Não uma, nem duas, mas diversas vezes ouvi comentários depreciativos em relação a estética de quem eu amava. Se eu poderia estar com uma pessoa "bonita", o que eu fazia com a "feia"? E a mesma indagação já fizeram para quem me amava e assim, com ofensas disfarçadas, pessoas do lado de fora tentavam entender um amor que iria além de aparência e acontecia do lado de dentro. Como o próprio texto enaltece: "Enquanto uns oferecem uma felicidade pronta, tal homem criou uma felicidade somente para ela. [...] Enquanto você se fixa na aparência, ela se decidiu pela intimidade."

É curioso que depois de tantos anos depois de eu falar no Twitter que o Carpinejar era extremamente clichê, seis anos para ser exato, hoje eu acabe encontrando uma das obras do autor no meu caminho. É como se fosse uma forma de selar uma paz, ainda que antes não houvesse guerra, mas sim um estranhamento. É como se hoje nos entendêssemos e, ao nos encontrarmos numa esquina qualquer, consentíssemos que amar é nada mais do que um grande festival de clichês. Não é à toa que música brega fale em sua maioria de amor, pois é quando amamos que ficamos assim, ridiculamente bregas.

2 comentários:

  1. A gente reclama do clichê até a gente se deparar sendo clichê também.

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    Respostas
    1. Pois é, quem ama não consegue escapar de ser clichês vez em outra.

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