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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Mario Prata entrevista uns brasileiros - Mario Prata

Título: Mario Prata entrevista uns brasileiros

Autor: Mario Prata

ISBN-13: 9788501104274 

ISBN-10: 8501104272 

Ano: 2015 

Páginas: 248 

Idioma: Português 

Editora: Record





Depois de assistir Beasts of No Nation (2015) do Netflix no sábado passado, filme que retrata a guerra enquanto ceifadora da inocência tão inerente da infância, conclui estar bem perto de atingir minha cota de sofrimento para esse ano. Como se tanta tristeza não tivesse sido o bastante, no dia seguinte decidi ver o documentário The Bridge (2004), sobre as vinte e quatros pessoas que apenas em 2004 se jogaram da Golden Gate Bridge em San Francisco como tentativa de suicídio.

O resultado dessa maratona de imagens de dor e sofrimento foi uma noite de assombro e de bem pouca sonolência. Até que na segunda, quando iniciei minha nova leitura, o Mario Prata me tirou da escuridão com "Mario Prata entrevista uns brasileiros" e me fez gargalhar tão histericamente que poderiam ter me confundido com a própria D. Maria I, a louca.

Ao ressuscitar figuras históricas do Brasil, Mario Prata conduz o leitor em uma viagem humorada pela história brasileira. Nas suas vinte e duas entrevistas com personalidades importantes tais como Pedro Álvares Cabral, Aleijadinho e Xica da Silva, o autor desmente lendas do período colonial e faz humor com contos que até então só conhecíamos por causa de seus excessos de tristeza.

Na entrevista com Cabral, por exemplo, o autor nos faz questionar sobre a decisão do português em ter dado roupas aos índios ao invés de ter tirado as suas próprias para acompanhá-los na nudez, dado que chegava em um território tão quente e úmido como o nosso Brasil. Se não fosse o navegador, quem sabe não estaríamos agora nos embalando inteiramente nus numa rede no meio da mata (maldito sejas tu, Cabral!). Já o entrevistado Dom Pedro I, mais exigente, solicita de antemão que a entrevista não cubra dois assuntos: suas constantes gonorreias e a veracidade ou não da cagada imperial que o mesmo deu exatamente na hora da proclamação da independência, escondido numa moita às margens do Ipiranga.
- O senhor não acha o seu nome, Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, meio gay?
Ultrapassando a barreira dos personagens não-fictícios, Mario Prata também entrevista o nosso ilustríssimo Dom Casmurro (ou Bentinho para os mais íntimos). Ao fugir da discussão centenária sobre a traição ou não de Capitu (e baseado em um texto do outro ilustríssimo Millôr sobre a relação de Bentinho com Escobar), o autor questiona Bentinho quanto ao tamanho de seu afeto pelo Escobar, ressaltando partes avulsas de Dom Casmurro do Machado de Assis que eu mesmo na primeira vez que li deixei escaparem aos meus olhos hoje já bem mais maliciosos.
- Era normal, naquela época, uma rapaz se aproximar de um senhor, no trem da Central, e recitar poemas? [...] Não era esquisito? Ninguém comentava nada?
- Comentar o quê?
Algumas das crônicas contidas na obra foram separadamente postadas na revista Brasileiros, onde a ideia para o livro primeiramente surgiu, até que elas fossem publicadas esse ano pela Editora Record. Contando a (quase) história do Brasil na voz dos seus próprios personagens, Mario Prata faz qualquer um apaixonado por história cair da cadeira de tanto gargalhar. Digo que esse não é o melhor livro que li em 2015 pois fica difícil competir com Gabriel García Marquez, mas sem dúvida essa foi a leitura mais gostosa desses últimos meses.

2 comentários:

  1. Como fã de história que sempre fui, acho que essa será minha próxima pedida.

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    Respostas
    1. Cara, se queres rir bastante, precisas ler esse livro, sério :)

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