skip to main | skip to sidebar

O EPITÁFIO


Elder Ferreira

A Coragem do Primeiro Pássaro - André Dahmer

Título: A Coragem do Primeiro Pássaro 

Autor: André Dahmer

ISBN-13: 9788566740110 

ISBN-10: 8566740114 

Ano: 2015 

Páginas: 64 

Editora: Lote 42







Em 2013, quando pela primeira vez entrei em contato com a poesia do Dahmer, encantei-me com a leveza e simplicidade com que o cartunista fazia poesia e me arrancava risadas de página em página em Minha Alma Anagrama de Lama. No entanto, André Dahmer, que é famoso por suas tirinhas politicamente incorretas e por seu humor ácido, já deixou escapulir por entre um sarcasmo e outro nas suas tirinhas um pouco de angústia e dissabor. No seu terceiro livro de poesia, A Coragem do Primeiro Pássaro, ele decidiu enfim colocar tudo isso para fora em três eixos temáticos principais, amor, raiva e saudade, que se modificam e se metamorfoseiam no outro conforme a leitura (ou a vida) prossegue.

Com a sua poesia, Dahmer percorre os caminhos do amor de acordo com a perspectiva do tempo que conduz e modifica as diferentes fases de um término de um relacionamento. Nas primeiras páginas, um eu-lírico imerso em ilusões que se despedaçam em sua volta se defende: "antes de virar essa coisa eu ria sorria gargalhava". Por meio das lembranças, a obra transpira uma saudade que nutre a crença em um amor que ainda pode acontecer, que ainda pode da escuridão se fazer de novo luz, pois o amor "ainda mora no meu coração". A primeira parte do livro, intitulada "Vocês não me conhecem", deixa explícita a dor de quando o amor termina e captura o leitor para o sofrimento tão comum a quem já amou.
amor é assim

quem nunca perdeu
não sabe o que está perdendo
Sem perder completamente o humor tão típico do Dahmer, a segunda parte da obra, "Agora é guerra", já começa me arrancando risadas. Esse sorriso inicial vem como boas-vindas ao que parece ser um novo momento, uma fase onde o eu-lírico deixou de acreditar que "ninguém deve perder a vida fazendo poesia" e agora tira poemas da miséria, dá casa, banho, comida e com eles recomeça a vida. "Hoje dói bem menos" e, de repente, quem já se viu na mesma situação vai se entregando, entendendo e vendo a própria história ser contada. No meio da raiva que transmuta para saudade, Dahmer cria esse ambiente de melancolia e nostalgia.

Quem já amou sabe como é difícil lidar com o término de um relacionamento, pois quando a gente julga o amor superado, de repente ele surge assim a partir da falta que o outro faz, do silêncio que o outro deixa. Dahmer faz com que o leitor viva essa ausência a partir da sua poesia e o nos leva para a noite escura em que o eu-lírico habita. Como já disse Drummond, "a ausência é um estar em mim" e nesse estar o eu-lírico vislumbra a escuridão que já faz parte do seu eu tão saudade, tão melancolia. No entanto, em alguns momentos o pessimismo ultrapassa o desengano amoroso para se constituir em uma visão um tanto quanto "maldita" do mundo, chegando até mesmo a mostrar um apelo da morte.
do alto de uma janela
também posso me vestir de preto
para apitar o final
 
Na última parte da obra, "Ela era pra ser", uma aceitação branda se anuncia e, quando menciono branda, quero dizer que o amor ainda existe, mas a certeza do fim parece mais evidente e agora só restam os sentimentalismos. Descartando a resposta mais comum que se dá aos dramas amorosos (a de que tudo vai ficar bem), a obra finaliza com a máxima de que "não existe final feliz ou é final ou é feliz", pois a saudade sempre aperta junto com a solidão, ainda que em doses menores a cada dia. Com os temas privilegiados pelo autor pertencendo todos ao campo sentimental, às vezes fica a pergunta se as poesias não tem um teor confessional e analítico.
meu coração
cidade imensa
lugar em que você aprendeu
a viver sozinha
Diferente das outras obras do Dahmer, A Coragem do Primeiro Pássaro me surpreendeu por apresentar um lado mais denso e, até certo ponto, sombrio do autor. É como se você tivesse acesso ao diário daquele seu amigo mega engraçado e de repente se surpreendesse ao constatar que os sorrisos na verdade escondem melancolia e dor. Por causa disso, comentei com um amigo que eu andava lendo poesias que estavam resgatando alguns desencantos pessoais antigos, que estavam abrindo antigas feridas, jogando sal em cima e pressionado com o dedão indicador. Como resposta ao meu comentário, ele respondeu sem meias-palavras: "Esse escritor deve ser bom, então. Quem é?"

15 comentários:

  1. Ótima resenha! Deixa bem clara sobre o que se trata a obra e de que forma ela está estruturada.

    Apesar de não ser muito fã de poesia fiquei com muita vontade de ler a obra. Partiu livraria. hahah

    ResponderExcluir
  2. Conheço o Dahmer das tirinhas que de vez em quando compartilham na minha tl do facebook, algumas me chamaram bastante atenção. Não sabia que ele já tinha livro, fiquei interessada.
    Confesso que não sou lá muito fã de poesia, creio que ainda não consegui me conectar com a poesia de ninguém, talvez por isso não sinta esse deslumbramento que a maioria das pessoas tem com poesia. Mas... quem sabe vai com as letras do Dahmer, né?
    Amei a resenha, adoro a tua escrita. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Admito, não sou muito fã de poesia. Não quer dizer que eu não gosto, só que a maioria das experiências que tive não foram das mais agradáveis. Não sei se foi sua resenha tão bem escrita ou porque o livro realmente despertou minha vontade, mas fiquei interessadíssima nesse livro. Espero em um futuro, não tão distante assim espero, poder ler.
    Abraços,
    Duda - www.mylittlewonderland.com.br

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pela resenha!!! Resenhar livro de poesia não é fácil!
    Ainda não conhecia esse autor e embora me pareça uma obra excelente, confesso que poesia não é meu forte. Acho que se eu ler um livro de poesia por ano é muito.

    www.cladassombras.blogspot.com.br - Participe do nosso top comentarista de junho.

    ResponderExcluir
  5. Olá, nossa gostei da sua resenha e me fez ficar interessada nessa obra, não sou muito de comprar livros de poesia mas gosto bastante de ler, espero poder ter a oportunidade de ler um dia, vou anotar para quem sabe comprar futuramente?
    valeu a dica.

    http://vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  6. Olá!! Tudo bem?

    Não costumo ler muita poesia, mas adorei mesmo sua resenha e o autor. Parece ser um livro excelente, uma obra bem escrita, sombria e intensa. Eu adoraria conferir, e vou indicar para amigas que já gostam de ler poesias também. Adorei a dica, com certeza leria! E quem sabe um dia lerei.

    Beijo!

    http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  7. Oi!
    Não conhecia o livro, mas confesso que nao me interessou muito =/
    Não é bem o tipo de livro que me atrai.
    Gostei da resenha, muito bem escrita.

    Bjs!
    Fernanda

    ResponderExcluir