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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Mar Morto - Jorge Amado

Título: Mar Morto

Autor: Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras

Ano da 1ª Edição: 1936

Páginas: 288

ISBN: 9788535911824









Em uma época muito distante da minha vida, quando ainda me reunia ao redor da televisão da sala para assistir a novela das oito com a minha família, conheci a história de Guma, um marinheiro das beiras do cais da Bahia. A novela a qual assistíamos era Porto dos Milagres do Aguinaldo Silva, que indiretamente foi meu primeiro contato com Jorge Amado. A história, que traz um painel lírico e trágico sobre a luta diária dos marinheiros, é marcada por destinos incertos da vida no mar e por uma visão muito forte do folclore africano. O mar, uma entidade viva que engole marinheiros e devolve lágrimas de dor para as viúvas, é o lar de Iemanjá e também é o personagem principal dessa história sedutora e ao mesmo tempo angustiante.

A novela foi baseada no livro Mar Morto do Jorge Amado, publicado em 1936 e a história, por intermédio desse cotidiano de trabalho árduo e luta, mostra a realidade dos homens e mulheres do cais da Bahia em um período de ideias inovadoras mas mentes conservadoras. Ainda nesse universo marítimo, o livro conta com o mito africano de Iemanjá, trazido para o Brasil pelos escravos que foram arrastados pra cá pelos portugueses. Nessa representação de uma entidade religiosa feminina livre e dona de si, Jorge Amado sutilmente denuncia o costume tão vigente na época de aprisionar as mulheres e as suas liberdades. Um costume disseminador de um modelo comportamental que colocava (e ainda coloca) a mulher em um estado de  total sujeição à norma dominante.

"Iemanjá é assim terrível porque ela é mãe e esposa. Aquelas águas nasceram-lhe no dia em que seu filho a possuiu. Não são muitos no cais que sabem da história de Iemanjá e Orungã, seu filho. Mas Anselmo sabe e também o velho Francisco. No entanto, eles não vivem contando essa história, que ela faz desencadear a cólera de Janaína. Foi o caso que Iemanjá teve de Aganju, deus da terra firme, um filho, Orungã, que foi feito deus dos ares, de tudo o que fica entre a terra e o céu. Orungã rodou por estas terras, viveu por esses ares, mas o seu pensamento não saía da imagem da mãe, aquela bela rainha das águas (...). E do seu ventre, fecundado pelo filho, nasceram os orixás mais temidos, aqueles que mandam nos raios, nas tempestades e trovões."

O livro apresenta, além da história de Guma e de suas experiências marítimas e batalhas diárias, o poder e o não convencionalismo nos personagens femininos - o que me faz gostar bastante das mulheres da literatura do Jorge Amado, principalmente de Gabriela de Gabriela, Cravo e Canela. No caso, Lívia, esposa de Guma, e Rosa Palmeirão, mulher viajada por outras terras e de fibra e força para defender-se de ataques masculinos, são personagens que em Mar Morto descartam qualquer papel atribuído à mulher por causa de gênero e ambas ocupam espaços sociais que mulheres naquele contexto não ocupariam sem represálias. Pelo fato de Iemanjá também ser uma deidade que não se curva aos padrões de comportamento, seu mito acaba tendo mais uma função sociológica do que mística na obra e reforça a ideia feminista do texto.

Um outro aspecto que ocupa um papel muito importante na obra é o mar. Na medida em que o leitor mergulha na história, ele vai descobrindo que o mar não é apenas um pano de fundo para o desenvolvimento do enredo, mas é também uma metáfora sempre presente e com uma função específica: a de representar no sentido religioso profundo tanto uma deusa poderosa quando visto pelos olhos dos marinheiros, quanto um inimigo, quando visto pelas mulheres que ficam à espera dos homens no cais. Na história, as mulheres temem pela vida dos marítimos, mas como cresceram vendo pais e irmãos trabalhando no mar, elas acabam se resignando e vivendo uma vida de sofrimento, pois sabem que a vontade de Iemenjá - a deusa do mar - é maior que as suas vontades todas juntas.

Mesmo com todo o cotidiano de dor contido na obra, Mar Morto é um livro sobre uma história de amor e, por causa disso, os personagens buscam  com ânsia sua continuidade no ser amado, numa tentativa de submergir no outro (sim, estou usando esses verbos que lembram água de propósito) e se encontrarem através da fusão com o(a) amado(a). Mar Morto foi publicado quando Jorge Amado tinha 23 anos de vida e o autor levou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras pela história (enquanto eu nos meus 23 estou aqui compartilhando fotos de gatinhos fofos no Facebook). De um talento nato e uma literatura intensa, Jorge Amado merece todas as atenções possíveis não apenas por fazer um retrato histórico do nosso Brasil, mas por ter incluído um lirismo tão encantador nos seus textos.

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Um pouco antes de terminar esse texto, só gostaria de reproduzir um comentário de uma amiga baiana que ficou (quase) indignada ao saber que eu iria começar a ler mais uma vez outro livro do Jorge Amado. Nas palavras dela, existem outros escritores baianos que também merecem destaque, como João Ubaldo Ribeiro, Ildásio Tavares e Myriam Fraga, e é importante dar destaque a todos esses outros talentos sem tirar o mérito dos mais conhecidos e populares, claro. Quem sabe nas próximas resenhas não apareça algum desses autores aqui? Já li A casa dos budas ditosos do João Ubaldo Ribeiro e esse é sem dúvida um dos meus livros favoritos. Então, em breve (para alegria da minha amiga Lorena) outros baianos entrarão aqui na roda.

10 comentários:

  1. Percebi que você prefere os clássicos. Interessante isso no meio blogueiro, gostei :)
    Nunca li Mar Morto, mas lembro perfeitamente da novela. Agora quero ler para comparar. Lembro que na novela Guma era um pouco sonso (talvez por causa da interpretação do Marcos Palmeiras) e eu não gostava muito do personagem.
    Espero que isso não influencie em minha (futura) leitura.
    Bjs

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  2. Olá Elder, obrigada por visitar o Sushi Baiano!
    Depois que li Capitães da Areia (há uns 5 anos atrás, mais ou menos) toda aquela desmitificação de literatura brasileira ser chata acabou. Como não gostar de algo q está tão próximo do seu cotidiano, e que tem um valor cultural enorme? Adoro a escrita de Jorge, e tenho muitos livros dele na minha lista de leitura.
    Adorei a sua análise do livro, toda a captação do envolvimento dos personagens que você fez. Você escreve muito bem! ahah
    Beijoss.

    http://www.sushibaiano.com/

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    1. Então, Susan, encontrei Capitães de Areia para ler e tô bem empolgado para começar. Irei só terminar dois que já leio e partirei para ele. E sim, é difícil não gostar de livros com valores culturais tão grandes.

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  3. Nunca li nada de Jorge Amado e tenho muito interesse nos classicos da literatura brasileira. Adorei a resenha, bem construída e bem feita. Parabéns!
    http://sem-roteiros.blogspot.com.br/

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  4. "Um tempo muito distante" ahahaha todo mundo um dia já teve costume de assistir novela com a família né, parece tradição. Não sabia que a novela tinha sido inspirada nesse livro, e confesso que também não tenho o hábito de ler obras de autores mais antigos, mas você falou tão bem, principalmente do que retrata o mar na história, que fiquei curiosa pra ler!

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem post novo no blog sobre Readgeek, vem descobrir o que é!

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  5. Oi Elder!
    Jorge Amado é uma falha no meu currículo de leitora. Nunca li nenhum livro do autor, acredita? Lembro de ter começado um no ensino médio (e era justamente "Mar Morto"), mas não conclui a leitura (não recordo porquê).
    Gosto muito quando os autores sabem se valer de metáforas para enriquecer seus textos. Acho que iria gostar de saber o que há por trás desse mar :)
    Beijos
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Poxa, Mariana, tenta ler ao menos um, só pra saber se gostas ou não. Experimenta Gabriela, Cravo e Canela. Foi o primeiro dele que li e gostei muito. Por sinal, tem resenha aqui no blog de Gabriela. É só clicar na tag Jorge Amado que podes ver todas as resenhas dos livros dele que já fiz aqui.

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  6. Oi.
    Assisti Porto dos Milagres e não fazia ideia que era baseada em um livro. Até porque na época eu era bem mais nova e nem fazia essas conexões.
    Mas enfim, nunca li nada do Jorge Amado (vergonha) e acho que esse livro seria uma boa opção, até por já ter algum contato, mesmo que pequeno, com os personagens e um pouco da história.
    Bjo

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  7. estou perplexa hahahaha você está me dizendo que a novela que eu via quando era pequena é baseada nesse livro do jorginho??? OLOCO
    que nostalgia começar a ler seu post e ver escrito 'porto dos milagres'. saudades.

    dele, só li capitães, mas sou apaixonada pelo livro, pelas personagens...

    sinto o mesmo quando vejo que alguns escritores ganhavam prêmio aos 20 enquanto eu fico brisando no facebook... trágico!

    www.pe-dri-nha.blogspot.com

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    1. SIMMMMMMMM

      O Gumercino era todo o personagem criado por Jorge Amado. Fiquei meio "woww" também quando descobri. Irei começar a leitura de Capitães em breve!

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