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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Infância - Graciliano Ramos

Título: Infância

Autor: Graciliano Ramos

Editora: Record

Ano da Edição: 2006

Número de Páginas: 316












Graciliano Ramos é considerado por críticos literários um dos grandes nomes do ciclo do regionalismo nordestino e está entre os maiores romancistas brasileiros do século XX. Com livros traduzidos para línguas como francês, inglês, italiano e etc., o autor perpetua seu estilo rigoroso, cheio de períodos curtos, com ênfase nos substantivos e verbos e com pouca adjetivação que nitidamente reflete o sertão duro retratado em suas obras. Quer pela profundidade psicológica conferida aos seus personagens, quer pela problemática sociopolítica abordada em suas histórias, a obra de Graciliano Ramos alcançou prestígio internacional e se eternizou na literatura brasileira.

Em Infância (1947), Graciliano Ramos discorre sobre o seu tempo de menino, suas relações com o universo sertanejo de sua meninice e seus primeiros anos de educação, conferindo a obra um ar biográfico e memorialista. O livro, que mostra o amadurecimento da criança até os seus anos de puberdade, pode tanto ser lido como um romance quanto um conjunto de contos. O narrador já é adulto na obra e, com alguma dificuldade, vai relembrando o passado entre seus familiares e expressando como construiu sua personalidade por intermédio de experiências de dor e angústia que vivenciou quando mais jovem.

Um dos aspectos que mais chama a atenção na obra é a descrição da infância do personagem como sendo oprimida e humilhada, pois ele é um ser fraco diante dos adultos. De alguma maneira, esse cotidiano molda a personalidade da criança, pois (relembrando as aulas de sociologia da tia Maricotinha lá no ensino médio) o indivíduo é produto do meio em que vive. No livro, o narrador descreve como algumas situações do dia a dia o levaram a temer as autoridades e a enxergar a opressão presente no nosso mundo, opressão que sufoca e massacra, principalmente os mais humildes.

"As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural [...] Onde estava o cinturão? Impossível responder [...] Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça."

Na narrativa, o leitor também é introduzido ao primeiro contato da criança com as letras e, por intermédio da narrativa, o autor mostra como ele próprio se interessou pela literatura e pela escrita. Graciliano descreve a experiência árdua que teve com as letras no início e também conta quando começou a se interessar pela literatura. Não muito diferente do autor, também comecei a gostar de literatura quando, com auxílio de uma professora, descobri o poder de decifrar os livros e buscar informações nas entrelinhas. Desde então, assim como o menino da obra, comecei a ler buscando significados, tentando encontrar símbolos e, quando dei por mim, já estava encantado com a literatura.

Em toda a narrativa de Infância a criança passa por um processo de aprendizagem e amadurecimento interior, principalmente ao aprender a lidar com as perdas e as dores, e esse processo é descrito com uma linguagem que até certo ponto pode afastar alguns leitores bem como atrair outros. Escrever sobre a infância é decidir prestar homenagem a um tempo perdido, distante em tudo do presente. Graciliano Ramos descreve essa fase de descobertas da vida com uma franqueza tão dura quanto as experiências relatadas no seu texto. A obra, no final, pode ser compreendida como um conjunto de memórias e como um livro que também auxilia o leitor, junto com o narrador da trama, a se encontrar.

6 comentários:

  1. Adorei sua resenha, n conhecia esse livro

    http://blogquerida.blogspot.com.br/

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  2. Eu estava a procura de resenhas para este livro e acabei parando aqui. Graciliano é mesmo um dos maiores escritores que minha terra poderia dar. Ao ler sua resenha não sabia se me admirava com o livro ou com a maestria que você a compôs. Espero algum dia fazer resenha tão boas como as suas. Essa resenha eu realmente "absorvi"! Meus parabéns.
    Abraços e feliz ano novo.
    http://respiralivros.blogspot.com

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  3. Oi Elder,
    Nunca li nada do Graciliano, mas gosto bastante de livros de memórias e inspirados na infância dos autores. Analisar sua própria vida de outra perspectiva é algo fantástico e acho muito recomendável para todos nós. Muitas das coisas pelas quais passamos na nossa infância são perdidas e esquecidas pelo tempo, mas se pudéssemos analisar tudo isso com outros olhos, veríamos que essa infância foi a base para o que somos hoje. Ótima resenha!

    Beijos,
    Mari Siqueira
    http://loveloversblog.blogspot.com

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  4. O tipo de livro que gosto, parece sensível por se tratar da infância acho muito lindo, entrou fácil na listinha ainda mais depois da sua resenha cheia de empolgação.

    Abs

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  5. Esse livro é ótimo, mas é de difícil leitura para mim. É muito usada a mesóclise e ainda não aprendi a mesma no colégio. Algumas expressões típicas nordestinas também dificultam a leitura.

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