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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Contos d'escárnio: textos grotescos - Hilda Hilst


Título: Contos d'escárnio: textos grotescos

Autor(a): Hilda Hilst

Editora: Globo Livros

Ano da Edição: 2002

Número de Páginas: 140



Histórias eróticas, devido aos nossos enigmas internos quando o assunto é prazer, podem agradar por causa das suas descrições moderadas, mas também desagradar por causa do excesso de obscenidade. Algumas vezes, elas podem agradar a todos por causa da variedade em si contidas. Mas na maior parte do tempo, muitas dessas histórias refletem uma dedicação tamanha à libertinagem e bem pouco empenho na qualidade da escrita. Por isso, muitos ainda associam literatura erótica a texto produzido às avessas. Hilda Hilst, porém, com o lançamento de sua trilogia erótica - O caderno rosa de Lori Lamby (1990), Contos d’escárnio: textos grotescos (1990) e Diário de um sedutor (1991) - demonstrou que erotismo não apenas pode se casar com a poesia, mas que também pode ser lúbrico e erudito em um só.

Impulsionada pelo desejo de atrair mais leitores para a sua obra literária e observando as constantes publicações do mercado editorial da sua época, Hilda decidiu escrever sua trilogia pornográfica apostando no que os leitores estavam consumindo. De uma forma irônica, a autora escreveu obras que tentavam se assimilar a qualidade dos textos então produzidos no seu tempo. Como afirma o narrador de Contos d'escárnio: textos grotescos, claramente evidenciando os próprios pensamentos da autora: "Ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu". As obras da trilogia obscena provocaram espanto na crítica e alguns intitularam a nova fase da autora de "lixo". No entanto, o domínio narrativo de Hilda engradeceu seus textos rodeados do que ela chamou "uma divertida bandalheira". 

"Resolvi escrever este livro porque ao longo da minha vida tenho lido tanto lixo que resolvi escrever o meu. Sempre sonhei ser escritor. Mas tinha tal respeito pela literatura que jamais ousei. Hoje, no entanto, todo mundo se diz escritor. E os outros, os que leem, também acham que os idiotas o são. É tanta bestagem em letra de fôrma que pensei, por que não posso escrever a minha?"

Em Contos d’escárnio: textos grotescos, o segundo volume da trilogia, Hilda apresenta um diálogo entre o grotesco, a pornografia e a melancolia que são representados, respectivamente, pelo narrador Crasso, sua amante Clódia e o escritor resignado Hans Haeckel. Crasso, o narrador, opta por não seguir uma ordem ou estilo formal durante sua escrita, sempre rejeitando marcações temporais. Em alguns momentos, os leitores se deparam com poesias. Já em outros, a história é contada por meio de cartas, e mais adiante, o narrador conta a história por intermédio de pequenos contos incluídos na grande narrativa que é o livro por si só.

É importante destacar que a opção da autora pela pornografia não passou de um recurso irônico com vias à crítica da situação enfrentada pelo escritor contemporâneo. O livro, porém, não se tornou um best-seller como pretendia Hilda, pois o uso da pornografia acabou se dando de forma consciente pela autora que usou convenções para atacar o clichê. No final, Contos d’escárnio: textos grotescos acaba se configurando como uma paródia com textos altamente elaborados esteticamente e, portanto, de difícil penetração no mercado editorial. Em outras palavras, Hilda Hilst uniu na sua trilogia obscena a satisfação pelo gosto esteticamente refinado e pelo gosto popular e, portanto, ao leitor só resta reconhecer a mistura dos estilos cultos e populares e tirar prazer dessa mistura.

"Meu pau fremiu (essa frase aí é uma sequela minha por ter lido antanho o D. H. Lawrence). Digo talvez meu pau estremeceu? Meu pau agitou-se? Meu pau levantou a cabeça? Esse negócio de escrever é penoso. É preciso definir com clareza, movimento e emoção. E o estremecer do pau é indefinível. Dizer um arrepio do pau não é bom. Fremir é pedantesco. Eu devo ter lido uma má tradução do Lawrence, porque está aqui no dicionário: fremir (do latim fremere) ter rumor surdo e áspero. Dão um exemplo: “Os velozes vagões fremiam”. Nada a ver com pau. Depois, sinônimos: bramir, rugir, gemer, bramar. Cré, como diria o padre tutor de Tavim, nada mesmo a ver com o pau. Meu pau vibrou, meu pau teve contrações espasmódicas? Nem pensar. Então, meu pau aquilo. O leitor entendeu."

É fabuloso como a Hilda Hilst, mesmo quando adentra no popular e obsceno, transforma o indecente e o módico em poesia e primor. Não é à toa que ela é considerada uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. No entanto, de antemão aviso que o texto da Hilda pode ser pesado e pode aborrecer os mais impacientes, pois seu estilo pode até certo ponto ser compreendido como um poema em prosa estendida e, por isso, ela vai além do texto simples que se lê apenas para se distrair. Como já disse a própria autora em uma entrevista de 1969 ao jornal Correio Popular: "Quero ser lida em profundidade e não como distração, porque não leio os outros para me distrair, mas para compreender, para me comunicar. Não quero ser distraída. Penso que é a última coisa que se devia pedir a um escritor: novelinhas para ler no bonde, no carro, no avião”.

4 comentários:

  1. eu não conhecia a HH, mas depois de ler essa resenha, eu a achei muito demais!
    realmente ela conseguiu transformar o feio em algo tão incrível, e essas tentativas de explicar sobre o "fremir do pau" foi interessante. rsrs
    eu também gosto muito de ler os livros para compreender, para distrair eu procuro outra coisa, talvez a televisão, mas livros são melhores para refletir, não somente para ler, por ler - afinal, quando pegamos amor pela leitura, nunca mais será apenas uma distraçao.
    enfim, curti seu blog, te achei muito maduro. seguindo! abraços

    gabryel fellipe

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  2. Não conhecia Hilda Hilst. Gostei muito da sua resenha, fiquei com vontade de conhecer as obras. É um tema ainda "polêmico" mesmo que nas novas de horário nobre passe coisas muito piores, mas não preconceito é o bastante contra um bom livro.

    http://blogquerida.blogspot.com.br/

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  3. Olá!

    Ainda não li nada da HH, mas não por falta de vontade. Essa miscelânea de sentimentos e formas de abordar um assunto parece encantador.

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  4. Muito interessante, não sabia que se tratava de uma trilogia. Vai pra fila de leitura!

    www.miscigenacoes.blogspot.com

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