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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Pessach: a travessia - Carlos Heitor Cony


Pessach: a travessia de Carlos Heitor Cony, publicado originalmente em 1967, é um romance engajado – no termo político da coisa – que se passa em uma das épocas mais sombrias da história brasileira. O livro conta a história do escritor Paulo Simões, que em meio ao regime militar imposto ao país em 1964, é apresentado a dúvida comum a qualquer pessoa entre os anos 60 e 70 do século passado: juntar-se a luta armada contra o regime militar ou sentar-se e assistir passivamente aos exageros do governo.

Paulo Simões é um escritor pequeno-burguês, vivendo uma vida em equilíbrio, sem tantas dificuldades para fazê-la excitante, sem muitas facilidades porque não tá fácil pra ninguém, portanto, uma vida, por assim dizer, monótona. Um indivíduo cumpridor dos regulamentos, que não se toma de qualquer partido e que sempre “fica assim onde quer: no meio. Sozinho”. No dia dos seus quarenta anos, ele recebe a visita – já esperada – de um velho amigo, Sílvio, que há tempos procurava por ele. Sílvio surge com uma proposta “fantástica”, que a início deixa Paulo confuso e, logo em seguida, completamente contrário a ideia apresentada:
— Paulo, você, como todos nós, está na encruzilhada. O país, a humanidade, estão na encruzilhada. Só há duas atitudes: ou ficamos sentados, à beira da estrada, sem tomar nenhum dos caminhos, ou optamos por um deles. Creio que você como homem e como escritor, não gostará de ficar sentado. Afinal, você não se preparou durante tantos anos para, na idade madura, sentar-se a beira da estrada. Assim, só lhe restam os dois caminhos, que são a outra ponta da alternativa inicial. Pois venho propor o meu caminho, que pode ser o nosso caminho: numa palavra simples, pequena e perigosa, a luta.

Confesso que se Paulo fosse eu, já estava na luta há muito tempo, esse tipo de discurso inflamado me excita. Mas como Paulo não sou eu e nem eu sou Paulo, vamos continuar. Paulo é um indivíduo que fica sempre no meio. Penso que se a história corresse nos dias atuais, Paulo seria aquele sujeito – chato por sinal – que compartilha foto de cachorrinho morto, manda corrente contra fome na áfrica e envia spam alertando sobre a corrupção no Brasil, mas, que no final das contas, nunca levanta a bundinha pra fazer nada e que permanece vivendo sentado “uma cumplicidade criminosa”. Paulo assina alguns manifestos, para tirar um ou outro da cadeia por ter se rebelado contra o governo, nada mais. De resto, resume-se:
– Não gosto do governo atual, mas jamais gostei de governo algum. Politicamente, sou anarquista, mas sobretudo sou comodista. Por isso mesmo, me considero inofensivo e covarde. Não estou disposto a dar ou a receber tiro por causa da liberdade, da democracia, do socialismo, do nacionalismo, do povo, das criancinhas do Nordeste, que morrem de fome. O fato político não me preocupa, é tudo.

O autor, ao passo que nos descreve as idéias que colidem na cabeça de Paulo e que geram mudanças, faz uma analogia curiosa com o Pessach, o feriado judeu. Pessach é uma comemoração judaica, que celebra a fuga do povo hebreu da escravidão no Egito para a liberdade na terra prometida – liderados por Moisés, mas essa história vocês conhecem melhor do que eu –. Enquanto o povo hebreu foge da escravidão em busca da liberdade, Paulo não tem para onde fugir, a não ser para a escravidão, visto que já é livre. Mas iria Paulo fugir da liberdade para a escravidão? Claro que not. Acontece que Paulo não vive uma plena liberdade, a liberdade que vive é quase besta, nas palavras do autor é "estúpido ser livre e não ter nada o que fazer com a liberdade”.
Paulo é uma pessoa livre, que vive, porém, escravo de si mesmo e de seu todo individualismo. Desde a visita de Sílvio a sua casa, Paulo começou a se envolver com novas ideologias, conhecer novos pontos de vista e abrir os olhos para a opressão do governo, que tortura camaradas em troca de informações e que amordaça a camada pensante da sociedade. Frente a isso, o autor descreve a travessia da escravidão individualista de Paulo para uma liberdade altruísta.
Confesso que andava com saudade de ler uma obra nacional, já tinha um tempo que via esse livro na estante da Saraiva, mas nunca via o dinheiro no meu bolso. Daí que o danado apareceu, então comprei e não me arrependi. O autor já me é conhecido, mas o livro em questão não era. O livro é em primeira pessoa e está longe de ser um romance de reviravoltas, quem tá acostumado com vampiros e lobos, tempestades e dragões, talvez não goste da literatura do Cony, mas não custa tentar. O livro é fabuloso, tanto pelo contexto no qual é inserido – particularmente nunca li nada que se passasse no regime militar, mas aceito sugestões –, quanto pela descrição da conversão que se passa dentro da cabeça do personagem principal.
É incrível – e triste – perceber a atemporalidade da obra, mesmo que a ditadura e todo o seu demérito de censura já estejam longe, ainda hoje é possível presenciar um governo que descrimina a opinião pública e que produz notícias mastigadas, que apenas fazem o povo ouvir, mas pouco pensar. É curioso, mas ainda hoje li uma notícia sobre a Isabel Allende – a autora de Zorro –, dizendo que os livros da escritora foram proibidos em uma escola norte americana por um sujeito que “confessa que nunca leu a obra de Allende. Mas 'Não me interessa o que dizem [os livros]. Sei que não são bons para os nossos alunos’”. No final, a obra do Carlos Heitor Cony não está assim tão longe da realidade, aí anda a censura à fora, contra o intelectualismo, contra gente pensante. Por mim, que sejam contra, desde que sejam calados.
Nota: 4 corvos.

8 comentários:

  1. Analisando o final da resenha, convenhamos que são poucos os adolescentes que curtem ler livros mais políticos [eu era desses adolescentes =/]. Me interessou bastante, fui ver o preço e chorei rs, mas entrou pra minha listinha. =)

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    1. O preço é um pouco salgado, mas eu te empresto Tathy, afinal o que eu não faço pelos amigos bookaholics?

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  2. Nunca li histórias com esse tipo de ambientação e admito que fiquei muito interessado nesse livro, mas é sempre esse o efeito que as resenhas do Elder me causam. A propósito, muito boa a resenha.

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    1. O livro vale a pena ser lido, quando terminei fiquei com sede de continuação... o dia em que eu encontrar o Carlos Heitor Cony vou pedir pra ele escrever "Pessach: a continuação", tu vais ver só.

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  3. Leia Quarup de Antonio Callado, é simplesmente perfeito. Quem gostou de Pessach: A travessia vai se deliciar com a obra de Callado.

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    1. Eu li sobre o livro e me interessei demais, obrigado pela dica!

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  4. Achei esse livro na rua, num estado ruim, mas legível. Adorei a resenha, começarei o livro já.

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