skip to main | skip to sidebar

O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Meretriz da baixa avenida - Conto


Coloca alguns cigarros no bolso e outro nos lábios frios. Traga toda aquela vontade incontida e despeja o prazer exacerbado numa fumaça que se atenua. Repete o processo tantas vezes enquanto os olhos procuram companhia ou um corpo, apenas, que não fale, mas obedeça. Fita uns rapazes fortes, esguios e de faces repletas de falsa candura. Não há interesse, o momento é outro, o instante é outro. Se ao invés daqueles homens tão cheios de si, houvesse um menino tímido, disposto a ouvir, aprender. Mas não havia.

Caminha ainda veloz e depara-se com quase riqueza a pouco almejada. Dos olhos escuros e assustados, das mãos nervosas e sem jeito, dos seios atentos e de uma cintura firme, mas súdita do tempo. Era bela, moça muda, mas cheia de corpo. Conversaram pelo tempo necessário. Em se tratando de negócios, agilidade e esperteza são fatores fundamentais.

No ambiente apropriado aos devaneios, se olham. Dele um olhar viçoso, reto, marcado de culpa, olhar que – pasme – tem sede, sede de vida alheia, vida vagabunda. Dela se ofusca vontade, transpira nervosismo, não é a primeira vez, já esteve na situação por muito menos, o prazer, se der caras a cena, será bem recebido por surpresa. Não é tarde pra mudar o tempo, pra sair da situação, mas prefere o risco, a moçoila dos peitos já intumescidos, dos lábios embebedados de desejo, deixa assim.

Um remexer desesperado se prorroga. Trata sua virgem na violência, mas paradoxalmente vai semeando sentimento. Ele, força, fixa-se tenaz ao corpo que se apresenta escravo. Enroscam-se formando um agonizante gemido, um ofegar desinibido, apertam-se. “Pera, calma”. Fortemente atracam-se lotados de uma vontade não compartilhada. Um penetrar de opiniões, um entrar e sair de conceitos. O calor misturado a arrependimentos, ela sem ar: “pera, um instante, vou no banheiro”. Porta do mictório fechada, ela fita-se um instante no espelho, num batom tom escuro escreve coisas na vidraça suja, um “que merda”, uma declaração talvez, e volta ao quarto disposta a deixar o local.

Sendo impedida de ir embora, esperneia e grita “me solta, louco, me solta, porra!”, cada hora mais cheia de arrependimentos. “Porra é o caralho. Puta! Isso mesmo, puta! Meretriz da baixa avenida, é isso que tu é!” e tasca-lhe os punhos na face da pobre. Novamente sendo despida, agora sem consciência, vai tornando-se útil as vontades doentias. Ele certifica-se de que a moça morre e torce-lhe o pescoço pra terminar o ato, pra matar por fora o que por dentro fenecia há tempos.

Sem quaisquer pesos, levanta-se, arruma-se lento e vai acendendo cigarros que lhe sossegam a mente. O corpo que ficasse por lá, destino do lixo todos sabem qual é, o trabalho de dar fim ao entulho que fosse de outro, não dele, o seu bem a humanidade acabara de fazer. E ainda pelo quarto, toma-se de uma vontade de urinar, despejar esse aperto pra fora. Esporrada de uréia, de uma uréia diluída a satisfação, sim, mas também marcada pela culpa. E saindo apressado, sem lavar as mãos, percebe uns escritos adelgaçados no espelho, aproxima-se gradualmente e atento, lê as palavras que lhe soam incômodas: “desejo que o mais novo soropositivo do mundo seja feliz!”. E ela também fizera o seu favor à humanidade.



_____________________________________________________________
Depois de um tempo o conto foi mudado, o final foi reescrito. Especificamente depois de algumas sugestões feitas pelo Guilherme de Andrade, sugestões de muitíssimo valor.

7 comentários:

  1. Como já tinha comentado com você, gostei muito do texto, ou melhor: gostei da nova roupagem dele...
    Você deu uma nova "cor" a um texto já batido (em alguns pontos) e fez algo, digamos, que dispetou a minha pena pelo mlkinho...
    Tá, ele foi um idiota, mas me deu pena, fazer oq? HUAhuHAuhUahuHa
    A frase que eu mais gostei foi: " É um touro em inquietude e ao mesmo tempo um mundo vazio." -- Acho que pelo fato de eu me encaixo perfeitamente nessa definição...
    Enfim, propedêuticas a parte (quê?!?) continue a escrever sempre assim mlk...
    Bjs

    ResponderExcluir
  2. "esporrada de uréia" foi ótima! altamente poético huahuhauuah

    ResponderExcluir
  3. Fiquei chocada com o texto...surpreendente vc fica querendo saber o final. No inicio parece mais um velho conto batido, mas ai vc vai desenvolvendo e só tem um jeito: terminar de ler.... gostei da frase de impacto: "E ela também fizera o seu favor à humanidade."

    ResponderExcluir
  4. Que bom que gostou do blog :-)

    Esse seu amigo sabe das coisas hahaha

    ResponderExcluir
  5. Eu quero post novos. Cumassim esquecer o blog? u_ú

    ResponderExcluir
  6. "Um penetrar de opiniões, um entrar e sair de conceitos."

    Não sei por que mais essa frase me chamou a atenção rs

    Belo trabalho, rapazinho.

    ^^

    ResponderExcluir