skip to main | skip to sidebar

O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Agente comunicante, poluidor - Conto

I.
Já acordado abri as janelas e deparei-me a tal casualidade: vizinhos, apegados e desafetos caminhavam estranhamente pelas ruas. Andavam tão presos, tão sem consciência de seus próprios andares. Não foi espanto, gente assim tem de sobra por estas bandas, no entanto, hoje se faziam maioria. Uma fumaceira se possuía do ar. Não entendi os fatos; não entendi o que ia e voltava de forma inebriante. O que os fez tomarem tal aspecto? Não tinha certezas absolutas, mas no ambiente também se formavam outras estranhezas. O novo brigava a procura de espaços entre as edificações da cidade, no corpo dos homens, na mente dos poluídos. Tudo é morbidez.
Procurei por minhas tecnologias, liguei-as, ativei-as, dei-lhes energia, mas ainda estavam tomadas de aberrações. A minhas respostas, certamente, não as encontraria. Se as encontrasse, estariam disformes. O sol tocava o inferno dos homens, mas o título já possuía, faltava-lhe apenas o clima. Deu-me vontade de gritar, loucura ou simples vontade, e até gritaria forte se pudesse, mas a voz já não me obedecia, ela obedecia aos outros: os animais, os porcos famintos, os aproveitadores. Os que tinham a liberdade de grito gritavam manipulados, os outros se calavam conformados com sua sorte. Juntei-me as minhas poucas definições e me dispus a fugir, embora tudo me dominasse: tudo.

II.
Na rua, as esquinas travavam competições, os prédios se digladiavam, os carros tossiam doentes e as pessoas se encaravam com olhares suspeitos. Enquanto a comunicação ocupava seu povo com a novela, as outras companheiras vagavam nos meios com fome de gente, fome do conhecimento alheio, fome de sugestão, fome de críticas e dispostas a devorar qualquer vestígio de razão. E devoravam com toda a fome indissociável de seu poder alienador, rasgavam, trituravam, agarravam firmes as essências pensáveis, as massas inteligíveis, os nervos pensantes. Dos que já eram seus de costume, sugavam até a última das compreensões e deixavam apenas um vazio que se dispersava entre os próximos.
Corria o mais veloz que minha disposição permitia, corria loucamente, assustado, com desespero e sem trilha predestinada. Corria para que não me devorassem, não consumissem o que de tão importante ainda havia em mim. Roupas já não me haviam, sentia-me descoberto.

III.

Outros também corriam. E nestes me agarrei firme, arrastei seus corpos para próximo do meu. Todos nós, que sabíamos estar correndo pelos mesmos motivos, avançamos rumo a esconderijos, frestas no sistema, crateras que após a queda nos levassem ao inferno, mas nunca a aberração. Achamo-nos distantes, tempo depois, e nos sentamos todos a fim de discutir, brigar, expor nossos medos e contradições, nossos desejos e opiniões, nossas realidades verdadeiras.
De onde estávamos víamos de tudo, as pessoas passavam perto de nós, e nos contorcíamos quando a fumaça que vinha de fora vinha nos tomar, a fumaça que vinha das precipitadas conclusões.
Fiz amigos, todos já íntimos, desapegados de nossas vergonhas, constantemente brigando contra nossa ignorância e orgulho. Muito os amei naqueles dias. No entanto, tínhamos dentro de nossas convicções a certeza de que esses momentos breves logo cessariam. Somados éramos poucos. A massa nos procurava para saciar sua sede, não havia dúvidas: estavam famintos.
Sabíamos de tudo neste instante, mas nada fizemos. Não havia mais escolhas: tudo indicava o fim. Despedi-me de todos com a certeza inconsciente de uma separação. Não mais os veria, eles não mais me veriam, e toda a luta se tornaria esquecimento. Abracei um por um querendo contar os meus sentimentalismos e mostrar o tão fraca que se mostrava as minhas ambições. Cheguei próximo a fenda que nos separava da civilização carnívora, neste momento meus sonhos se dissolveram: sai. Nunca mais lutaria. Jamais seria o mesmo, desde então. Todas essas palavras que representam o inalcançável, impossível, fora de qualquer possibilidade me angustiavam. O nosso poder nos levou a morte e ressuscitou toda a submissão rebelde, sempre seremos os poucos. O mundo se fez através de ventanias e palpitações e agora estamos todos calados.
Ainda hoje fazemos o que nos é capaz, todos juntos, de fazer. Não nos encontramos frequentemente. Mas nos dias que se sucedem as notícias serão as de sempre. As noticias que alienam e as que sustentam a ignorância do povo. E todos estarão escondidos.

Nenhum comentário: