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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Berço - Conto

Levando a vida devagar a criatura prosseguia, andava atordoada nessas épocas. Nada de importante, nada que lhe fizesse mudar o caminho, nada. Tudo se voltava para as recentes noticias ruins, deprimentes, noticias que remetem a morte. Levantaria de seu estado e lutaria pelo bom, pelo justo, pelo filho, mas a decisão estava tomada, faltava-lhe apenas a coragem. Uma vida tão insignificante quanto a sua própria vida e nada mais. Ninguém lhe mudaria os pensamentos. A situação era as tantas e solução as diversas, queria apenas não sofrer. Sofresse o novo agregado, o ocupante do ventre, o enfiado nas suas entranhas, sofresse o que nunca quisera, sofresse e ferisse a si mesma. Tudo ainda se fazia confusão. Eram tantos os caminhos que voltaria a fazer, as memórias a catar, os rostos e suas outras recordações. De qualquer forma, não estava sozinha. Havia alguém, esquecia-se da identidade, mas devia haver o outro desafortunado.

Os dias se passaram rápidos, morava na casa com os pais, embora fosse pela rua que vivesse suas vontades. A rua era a sua, as ruas que percorria sem saber qual casa bater, janela olhar, pessoas a dizer saudações. Tudo o que lhe importava era de pouca importância. Já não pensava no filho, demorou a admitir o nome afetuoso. Ainda pensava no despejo, mandar embora o invasor da casa desorganizada. Sentia fracas suas glórias, o bebe as consumia, pensava. Com sua fome de monstro, criatura abominável tomada de capas e ilusões, com seus dentes que não formados lhe abocanhavam, comia o resto de seus órgãos deteriorados pelos maus hábitos, os vícios vergonhosos, os prazeres passados que ofereceria para o herdeiro sem sorte.

Um mês se passou e nenhuma decisão concreta havia sido tomada. Não havia uma esperança, um acolhimento, uma amiga para que pudesse reclamar de suas desgraças. Tudo voltava ao momento inicial, estava louca ou não: sentia seus chutes. Tudo na sua mente se tornara verdade, a educação que tivera lhe concedia tal luxo. E sentia os chutes, muito fortes, intensos, tão cheios de energia que lhe feriam por dentro e davam muitas ânsias. Ainda antes de dois meses completos passou a ter preocupações com a visão do feto. Tudo estaria exposto, veria o que quisesse a criança: mãe borbulhando mágoas, exalando frustrações, veria todos os seus desejos e isso lhe preocupava. Não tinha seus olhos, não tinha seus chutes, não tinha sua certeza, tinha apenas sua ignorância quanto a esse assunto.

O tempo continuou e não podia se esconder. Apanhou, sofreu, gritou e foi humilhada, sem quaisquer injustiças. Merecia e nisso todos concordavam. O tempo ainda continuou e não achou o pai. Nem procurava, tudo era recomeço. Nada de expurgo, embora o corpo sendo seu e pudesse fazer o que lhe desejasse. Tudo estava tomando apoio. Teve depois de meses, que lhe foram muitas dores e chutes de verdade, o filho. O seu próprio filho, sem que a posse lhe importasse. Mas isso pouco lhe aperreava, estaria sempre ali, teria a educação que quisesse ter, tanto a mãe quanto o filho. A vida voltara à naturalidade.

Um comentário:

  1. égua muito bom mesmo.. *-*
    "Os dias se passaram rápidos, morava na casa com os pais, embora fosse pela rua que vivesse suas vontades. A rua era a sua" fala a verdade que isso foi pra mimmmm... xD

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