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domingo, 3 de julho de 2016

How to Read Literature Like a Professor - Thomas C. Foster

Título: How to Read Literatura Like a Professor

Título brasileiro: Para Ler Literatura Como um Professor

Autor: Thomas C. Foster

ISBN-13: 9780060009427 

ISBN-10: 006000942X 

Ano: 2003 

Páginas: 314

Idioma: inglês 

Editora: Harper Collins




Nas aulas de literatura, aprendemos a desvendar os mistérios das narrativas, decifrar os seus signos e a dar atenção ao tempo que habita no espaço em branco entre as palavras. Na primeira aula que tive da disciplina, larguei-me a dar interpretações para a música "O Segundo Sol" do Nando Reis, auxiliado por uma professora que até hoje me traz boas lembranças. A partir dessa experiência, fui me tornando algo como um detetive literário, buscando a todo momento os significados que residem além das palavras que se organizam em textos diante de nós. Em "How to Read Literature Like a Professor", o professor norte-americano Thomas C. Foster dá um curso intensivo de "literatura forense", explicando técnicas, recursos e mecanismos utilizados por escritores na elaboração de suas narrativas.

Thomas C. Foster é professor do departamento de Letras - Língua Inglesa da Universidade de Michigan, tendo ministrado cursos de ficção contemporânea, drama, poesia, escrita criativa e composição há mais de vinte anos na instituição. Das atividades com os alunos, discussões em sala de aula e debates com os estudantes, nasceu "How to Read Literature Like a Professor". Thomas escreveu uma obra que serve de guia para aqueles que, não tendo a oportunidade de participar de uma de suas aulas de literatura inglesa, querem aperfeiçoar a leitura das entrelinhas do texto literário, visto que compreender a literatura é entregar-se à reflexão que na maior parte do tempo reside além das palavras.

No primeiro capítulo, nos deparamos com o conceito de "quest", onde um personagem sai em uma jornada com uma razão aparente que esconde uma verdadeira razão, verdadeira razão essa que na maioria das vezes tem a ver com auto-conhecimento e a busca de si mesmo. Exemplos? Em "O Hobbit", a jornada de Bilbo é fundamental para ajudá-lo a entender que ele é mais corajoso do que imaginava. Em "Na Natureza Selvagem", Alexander Supertramp cruza os Estados Unidos para chegar à conclusão de que a felicidade só é real quando compartilhada. Rick Riodan, que utiliza o recurso de "quest" até demais na minha opinião, preencheu os seus best-sellers com jornadas: "Percy Jackson e os Olimpianos", "Os Heróis do Olimpo" e "As Crônicas dos Kane".

Em "How to Read Literature Like a Professor", o leitor também começa a ter uma noção de que praticamente todas as histórias que conhecemos possuem raízes na Bíblia, na mitologia greco-romana, nas obras de Shakespeare ou em histórias infantis como 'João & Maria'. Esse é o fenômeno metaliterário, onde ler é ter lido. A leitura cria ecos de outras leituras e um personagem nos lembra de outro, que nos lembra de outro e assim por diante. Um recurso narrativo ou uma descrição nos remete a outro romance. A frase curta e seca presente na obra que lemos nos lembra do tipo de frase de outro autor, fazendo com que cada leitura se mova numa constelação de leituras prévias. A partir de certa idade e carga literária que carregamos nas cotas, é sábio dizer que só relemos.

Ainda que o livro explique minuciosamente alguns recursos literários, é importante destacar que ler não é resolver uma palavra cruzada, mas sim encontrar um sentido no texto literário, sentido que pode se manifestar de diferentes formas para diferentes pessoas. Na literatura, nada e nem ninguém detém a última palavra. O papel do autor em "How to Read Literature Like a Professor" é de nos auxiliar na busca por esse sentido presente nas palavras. Direcionado a qualquer pessoa interessada na arte literária, a obra de Thomas Foster chegou ao Brasil sob o título de "Para Ler Literatura Como um Professor", sendo publicada pela editora Lua de Papel. Interessante (e talvez necessária?) para leitores e blogueiros literários iniciantes, a obra também é um passa tempo divertido para os leitores mais experientes.

sábado, 30 de abril de 2016

O dia em que decidi encerrar as minhas parcerias com as editoras

É fácil identificar o que leva a maioria a criar espaços literários na Internet: o anseio de estabelecer parcerias com grandes editoras. A lógica é simples, primeiramente o blogueiro se torna parceiro de uma editora, depois começa a receber livros como cortesia. O "pagamento" pelos livros é o comprometimento do blogueiro em ler as obras enviadas pelas editoras e resenhá-las no seu blog. Assim, o que antes era apenas um passatempo agora se torna também uma forma de se ganhar livros de graça. 

Afinal, quem não quer ganhar livros apenas sob o custo de resenhá-los?

Os blogueiros literários, entusiasmados com a possibilidade de ganhar livros de editoras, começaram uma corrida contra o tempo para fazer com que os seus blogs fiquem cada dia mais popular. Essa popularidade, na visão de alguns blogueiros — e de algumas editoras —, está ligada ao número de seguidores que o blog possui nas redes sociais e a quantidade de comentários que as postagens do blog possui. Um número alto de seguidores e comentários passa uma imagem de popularidade que, na maioria das vezes, realmente reflete a popularidade de um site, blog ou canal, mas nem sempre.


No âmbito dos blogs literários, esses números podem passar uma falsa imagem de popularidade ao invés de popularidade de fato, visto que, para atingir a "popularidade" que atrai editoras, muitos blogueiros se utilizam de artifícios "colaborativos" para elevar o número de comentários e seguidores. 

As trocas de seguidores baseadas no "me segue que eu te sigo de volta" são comuns no Twitter e Instagram e na blogosfera literária não poderia ser diferente. Blogueiros seguem outros blogueiros e, com a ajuda mútua, aumentam os seus números de seguidores sem perceber que no final eles estão limitando o próprio público.

A troca de seguidores e curtidas aumenta a "popularidade" do blog sob o custo de criar uma bolha de blogueiros literários que, com raríssimas exceções, se bastam a si mesmos, como se a blogosfera literária apenas vivesse a custa dos próprios blogueiros literários que leem e comentam em outros blogs literários. 

No que diz respeito aos comentários, a tática é quase a mesma do "me segue que eu te sigo de volta", mas requer um pouquinho mais de esforço do que apenas clicar em um botão de "seguir". Os blogueiros comentam em postagens de outros blogs, às vezes mesmo não tendo lido a postagem e fazendo observações genéricas, esperando que esses blogueiros literários retribuam o gesto. No final do comentário, alguns blogueiros colocam o link para o seu blog, como que fazendo um convite — que soa quase como uma obrigação  que diz: "agora vá no meu blog e retribua o comentário que acabei de fazer no seu"

Assim, com números altos de seguidores e vários comentários, a "popularidade" líquida — Bauman que me perdoe!  está instaurada. A partir de então, é só esperar que as editoras iniciem as suas seleções de blogs literários e começar a torcer para ser selecionado como um blog parceiro.

O sistema de escambo descrito acima faz com que, no final das contas, a sustentação da blogosfera literária seja feita, na maioria dos casos, pelos próprios blogueiros literários. Sendo que os blogs literários ficaram tão dependentes dos próprios blogueiros literários que qualquer feedback de um verdadeiro leitor — e não de alguém em busca de retribuições — já é um motivo para celebrar. No momento em que o blogueiro literário começa a perceber que está aos poucos saindo da bolha dos blogs literários e atingindo leitores de fora da blogosfera, ele se dá conta de que as horas dedicadas à manutenção do blog possuem um propósito maior: o de informar e propagar cultura.

No início do meu blog, segui os passos que os novos blogueiros seguem e, para ser honesto, no início foi bom, pois as práticas descritas anteriormente me trouxeram alguma "notoriedade". Mas essas práticas também me traziam cansaço e, pior do que isso, elas me causavam alguma frustração, pois os meus leitores não passavam de outros blogueiros literários que, como eu, também buscavam um pouco de atenção

O rompimento da bolha em que eu me encontrava, que me fez decidir não mais me importar com essa popularidade contrafeita, aconteceu quando recebi na minha caixa de entrada do Facebook um comentário de uma leitora de Londrina chamada Jovana.
Jovana Mariano — 10/20, 8:48pm
Cara parabéns pelo blog, estava num domingo de depressão e nem sei como fui parar no seu último post, comecei a ler e incrivelmente terminei (não que isso nunca tenha acontecido!) mas nas idas e vindas é que no fim eu até esqueci pq estava deprê! Continue, muito bom!
No momento em que li a mensagem da Jovana, imediatamente decidi parar com as "retribuições", pois me dei conta de que os leitores não necessariamente seguem ou comentam, embora eles sempre estejam sorrateiramente te observando. 

Não dá para você medir a popularidade do seu blog literário usando apenas números de comentários ou curtidores. Nesses seis anos na blogosfera, descobri que muita gente prefere ficar sem se envolver ou comentar, alguns gostam de usar o Twitter para dar feedbacks, críticas e conselhos e outras pessoas só gostam de clicar no botão de "curtir", mas a maioria passa invisível, sendo apenas possível saber da existência desses leitores invisíveis através do uso de tecnologias como o Google Analytics.

Libertei-me, nessa época, da bolha da autossuficiência dos blogs literários, mas acabei me vendo preso em outra bolha: a das parcerias com as editoras.

Não me interpretem mal, é maravilhoso receber livros de graça apenas sob o custo de resenhá-los e, como várias vezes me aconteceu, chegar em casa e encontrar uma obra lhe esperando na caixa do correio como cortesia de alguma editora. É, digo mais uma vez, maravilhoso. . . quando você tem tempo escorrendo pelas mãos e precisa preencher esse tempo imediatamente.

Na própria Bíblia, que eu leio não por afinidades religiosas mas porque muitas obras literárias fazem releituras do "texto sagrado", consta em Eclesiastes, Cap. 3: “Existe um tempo certo para cada coisa, momento oportuno para cada propósito debaixo do Sol: Tempo de nascer, tempo de morrer; tempo de plantar, tempo de colher.” Eu adicionaria mais um tempo a essa lista: o tempo de encerrar as parcerias com as editoras.

Nos últimos anos, o vestibular, a universidade, recentemente o intercâmbio e, desde o ano passado, o emprego, foram ferozmente engolindo o meu tempo livre, deixando-me cansado e, quase sempre, sem energias durante a semana. Afinal, não tendo nascido herdeiro e nem tendo ganhado na mega da virada, não me resta outra opção a não ser o trabalho duro e a escassez do tempo no ritmo do dia-a-dia.

Por causa das minhas tantas ocupações, a frequência das minhas leituras diminuiu. E é aí que começou a morar um dos meus problemas: o meu blog tinha parcerias com editoras e, como consequência disso, eu recebia livros para ler e resenhar. Na falta de tempo em que eu me achava (ou me perdia?), os meus horários livres eram preenchidos com leituras de livros das editoras parceiras, fazendo com que eu deixasse de lado outras leituras mais interessantes para dar espaço aos livros das parcerias que necessitavam o quanto antes serem lidos e resenhados. 

Um dia, sem quê nem pra quê, conclui que a leitura, atividade que mais me dá prazer, havia se tornado uma chata obrigação. 

Fuéééén.

Assim, os livros da minha estante que mais me chamavam atenção iam ficando para trás, visto que os livros das parcerias precisavam ser lidos e resenhados o mais breve possível. E acreditem, é frustrante postergar a leitura de um livro que você tanto queria ler para abrir espaço para outras obras que não fazem os seus olhos brilharem tanto assim.

No mês passado, para estourar todas as "bolhas" que me envolviam e viver livremente, decidi encerrar as parcerias com as editoras numa atitude que alguns chamariam de egoísmo, mas que eu prefiro chamar de libertação. 

Estabeleci-me como meu próprio senhor, escrevendo quando eu bem entender e lendo o que me der na telha — ou o que me derem de presente. E como é boa a sensação advinda dessa liberdade.

A vida é curta para se ler livros que não se quer ler, ouvir músicas que se não quer escutar e assistir filmes que nem de longe despertam atenção. Se em algum momento você começar a notar que os seus hobbies estão se transformando em uma grande bolha ao redor de você, pegue um lápis com uma ponta bem afiada e estoure essa bolha gigante antes que a falta de oxigênio comece a lhe sufocar. 

terça-feira, 29 de março de 2016

O papel de parede amarelo - Charlotte Gilman

Título: O papel de parede amarelo

Título original: The Yellow Wallpaper

Autora: Charlotte Perkins Gilman 

ISBN-13: 9788503012720

ISBN-10: 8503012723

Ano: 2016

Ano da primeira publicação: 1892

Páginas: 112

Editora: José Olympio



No início do ano, durante minhas estranhas didáticas com dicionários para me forçar a aprender mais palavras em inglês, deparei-me com o seguinte termo: gaslighting. Em resumo, gaslighting é uma das formas mais extremas, perigosas e eficazes de abuso emocional e psicológico utilizado por narcisistas e sociopatas como uma forma de controlar, confundir e debilitar alguém. O termo advém de uma peça de 1938, Gas Light, na qual um homem faz com que a sua mulher duvide de sua própria sanidade através do uso de manipulação psicológica. No momento em que comecei a ler O papel de parede amarelo, o termo gaslighting piscou diante dos meus olhos e se tornou recorrente durante toda a leitura, ainda que em nenhum momento a palavra tenha sido mencionada na história.

Em 1891, a norte-americana Charlotte Gilman publicou o conto O papel de parede amarelo na New England Magazine. No conto, Gilman narra a história de uma mulher enclausurada por seu marido, médico, sob o pretexto de estar com "uma leve tendência histérica" e com necessidade de ser tratada. No seu enclausuramento, a mulher entra em um estado de insanidade provocada por sua condição e por um papel de parede amarelo muito peculiar presente no quarto. O papel de parede, durante a narrativa, é utilizado constantemente para estabelecer metáforas sobre a posição da mulher na pirâmide social da época. A abordagem de temas envolvendo gaslighting e o papel restrito da mulher na sociedade fez com que O papel de parede amarelo se transformasse em um clássico da literatura feminista.

É interessante, porém, antes de comentar a história, entrar na vida da própria autora.

Em 1885, Charlotte casou-se com o artista Charles Stetson, tendo inicialmente negado o seu pedido de casamento com receio de não estar fazendo a coisa certa, mas depois cedendo. Contudo, o seu temor quanto a escolha entre a carreira e a família em conjunto com a coerção social que ditava as regras da vida feminina logo a levaram a uma depressão. Charlotte passou a se questionar sobre o papel que lhe tinha sido atribuído dentro do casamento e começou a sentir que algo, no meio de todo esse padrão imposto, não estava correto. No momento em que se sentiu aprisionada pelas amarras da convenção social, onde a mulher "deveria" escolher a família ao invés da carreira, Charlotte se separou, vindo alguns anos depois a escrever, entre outro textos feministas, O papel de parede amarelo.

Em O papel de parede amarelo, o leitor é convidado a conhecer a história através do diário de sua narradora que, isolada em um quarto infantil com um estranho papel de parede, encontra na escrita um modo de relatar os estranhos acontecimentos que tem presenciado, ainda que o marido não goste que ela escreva. No seu texto de parágrafos curtos e sentenças precisas, a narradora costura um clima tenso, onde ela conta ver barras no papel de parede amarelo que exibem uma mulher presa tentando se libertar. No auge de sua loucura, a narradora passa a ver várias mulheres atrás das barras padronizadas do papel amarelo, todas tentando se libertar. No que tange ao marido, ao saber de seus devaneios, resume a narradora a uma "tolinha", sempre a fazendo vestir a máscara da "mulher doida".
"Depois de tanta observação durante a noite, quando ele muda tanto, afinal descobri. O desenho da frente se mexe mesmo - é lógico! A mulher por trás dele o sacode! Às vezes penso que há muitas mulheres atrás, e às vezes apenas uma, e ela rasteja em volta bem depressa, e o movimento que faz rastejando sacode tudo. Então, nos locais bem claros ela fica parada, e nos pontos mais escuros ela se agarra nas barras e as sacode com força. E o tempo todo ela está tentando saltar para fora das grades. Mas ninguém conseguiria escapar daquele padrão de desenho – ele estrangula tanto."
Na metáfora que o papel de parede faz com as inúmeras mulheres aprisionadas atrás das barras de uma sociedade patriarcal, é possível fazer uma relação com a própria história de Charlotte que, embora tenha em partes se libertado dessas barras, passou anos de sua vida encarcerada pelo padrão que a impedia de escolher tanto ser dona de casa quanto correr atrás de sua carreira - se assumir esses dois papéis fosse o seu anseio. O papel de parede amarelo, por diversas vezes, deve ter sido interpretado como um mero conto de terror ou loucura, dada a sútil porém corajosa metáfora utilizada por Charlotte para descrever uma sociedade patriarcal que aprisionava e ainda aprisiona mulheres em casamento convencionais. Como diz Marcia Tiburi na apresentação da obra: "Ora, toda mulher conhece o papel de parede amarelo e seu bizarro padrão."

No final do ano passado, iniciei um trabalho voluntário como professor de inglês e produtor multimídia em uma ONG no interior do estado do Pará, a Associação de Mulheres da Área Pesqueira de Marudá. Com base nas dinâmicas, conversas e confissões que algumas mulheres me fizeram enquanto eu as fotografava ou as acompanhava durante as atividades da associação, afirmo que a obra de Charlotte, escrita há mais de cem anos atrás, ainda se faz tão atual, pois as barreiras, ainda que algumas acreditem que não, continuam impedindo que as mulheres se libertem por completo das amarras que a sociedade patriarcal lhes impõe. Amarras que as condenam por seus desejos, anseios e direitos e que, vez ou outra, as fazem acreditar que são insanas. Se me dissessem que O papel de parede amarelo foi escrito na semana passada, infelizmente e sem muito esforço eu acreditaria.

domingo, 27 de março de 2016

Holy Cow: Uma Fábula Animal - David Duchovny

Título: Holy Cow - Uma Fábula Animal

Título original: Holy Cow - A Modern-Day Dairy Tale

Autor: David Duchovny

ISBN-10: 8501106887 

Ano: 2015 

Páginas: 208 

País: Estados Unidos

Editora: Record




A aposta de que youtubers, atores/atrizes e pessoas famosas no geral podem, ao terem seus livros publicados, gerar um retorno financeiro expressivo para as editoras tem feito com que inúmeros títulos de famosos, sejam os mesmos advindos das redes sociais, do cinema ou reality shows, estejam sendo publicados continuamente. Holy Cow é um desses livros que foi escrito por um famoso, o ator David Duchovny, conhecido por interpretar o agente Fox Mulder no seriado de TV Arquivo X, mas com a exceção de que - para a minha grata surpresa - Duchovny possui um vasto conhecimento literário e o título de mestre em literatura inglesa pela Universidade de Yale. 

A fábula Holy Cow é infantil, embora a obra do escritor norte-americano possa assumir diferentes releituras, tanto infantis quanto adultas, o que torna a sua leitura agradável para todas as idades. A história não possui, evidentemente, muita densidade, mas não é a isso que a história se propõe. Na verdade, a história de Elsie Bovary, uma vaca muito feliz em sua bovinidade, é divertida e relaxante. No seu modo inocente e compassado, a história desperta pequenos questionamentos no leitor sobre os direitos dos animais, práticas pecuaristas que degradam o meio ambiente e o entendimento de que somos todos um só.

Elsie Bovary é uma vaca feliz, que vive em paz com o seu destino bovino e em harmonia com o ciclo que se repete na vida das vacas: as mamães e papais misteriosamente desaparecem depois que os filhotes se tornam capazes de também serem mamães e papais. Até que uma noite Elsie se vê atraída por um barulho na casa da fazenda e, através da janela, observa a família reunida em volta da TV. A televisão, para o seu espanto, revela o real destino das vacas e gados: o açougue, o churrasco, o hambúrguer, etc. A realidade a perturba e a aterroriza, o que a faz começar um diálogo interno sobre a dualidade humana que com a mão direita mata vacas, galinhas e porcos e com a esquerda afaga os cachorros e brinca com os gatos.

Nesse momento da história, pensei ter compreendido a "lição" da fábula de David Duchovny e ter acertado a bandeira que ele iria defender: a do veganismo. Mas errei feio e, melhor do que tomar posições e fazer julgamentos desnecessários, o autor levanta questionamentos e faz convites à reflexão, deixando para o leitor a tarefa de decidir o que é certo ou errado. O meu outro erro durante a leitura foi ter tentado "compreender a lição" quando eu ainda não tinha lido nem a metade do livro e, mais uma vez, fui surpreendido: Elsie, depois da experiência traumática, decide ir embora para a Índia, onde ela descobriu que as vacas são tratadas como deusas.

No ritmo dos planos de fuga, Elsie acaba se unindo a Tom, um peru tranquilão que nas vésperas do feriado de Ação de Graças começa uma rígida dieta para emagrecer e não ser escolhido para o abate, e Shalom, um porco recém convertido ao judaísmo que vê Israel como o destino ideal para os porcos, visto que carne suína não é assim tão apreciada por essas bandas de lá. Na aventura animal, o leitor é bombardeado de tiradas envolvendo a condição animal e as expressões do mundo humano, como "nem que a vaca tussa", etc. Não cheguei a gargalhar, mas inúmeras vezes lancei sorrisos faceiros de "ei, eu vi o que você fez aqui, David".

Ao construir uma fábula animal repleta de indiretas aos leitores, nós humanos, David Duchovny cria uma história que pode trazer um certo incômodo, o que, na narrativa, a própria Elsie percebe, mas como ela mesmo diz, "às vezes é preciso abrir o coração e soltar o verbo". É através do verbo solto de Elsie que a reflexão se materializa e a história faz sentido, pois não importa se um adulto ou criança entram em contato com a narrativa, ambos são forçados a se questionar. Por trazer questionamentos tão adultos em um livro para crianças, Holy Cow já se sustenta como muito além de "mais um livro de algum famoso", mas sim como um livro ponto de partida para discussões interessantes sobre relações sociais e direitos dos animais.

domingo, 27 de março de 2016

Sorria, você está sendo iluminado! - Felipe Guga

Título: Sorria, você está sendo iluminado! 

Autor: Felipe Guga 

ISBN-13: 9788501105899 

ISBN-10: 8501105899 

Ano: 2015 

Páginas: 96 

Idioma: português 

Editora: Galera Record







Os livros assumem formas nas mãos das diferentes pessoas que os leem. Formas feias, bonitas, estranhas, confusas, mas formas que dependem exclusivamente da relação entre escritor e leitor. É como se uma conexão ou química acontecesse entre um escritor que se esconde atrás de uma folha de papel e um leitor que se protege entre as páginas de um livro. Ninguém entende essa química porque ela se faz bilateral e única, portanto resta-nos aceitá-la como é e como se dá. Em Sorria, você está sendo iluminado! tive a oportunidade de ver a obra assumir duas formas: (1) nas minhas mãos o livro se fez completo de clichês, porém cheio de lindos traços  e (2) nas mãos de uma amiga que leu a obra quase junto comigo o livro se fez bonito e especial. 

Não me julguem mal e nem com antecedência, pois sei que os clichês têm suas verdades mais puras e vivas e, se adquiriram esse título nefasto, é por que são um conhecimento consolidado, um fluxo constante ou uma reflexão que vez ou outra volta para nos assombrar. Assim sendo, clichês são partes essenciais do nosso dia-a-dia, porém não chamam mais a nossa atenção por serem repetitivos. Em contrapartida, se a história, frase ou reflexão em questão for nova ou quase nova, ela pode ter um efeito diferente e intenso no indivíduo que a lê, escuta ou vê. E isso explica o motivo de minha amiga ter se apaixonado pelo livro do Felipe Guga enquanto que eu só tive um quick affair proporcionado pelos lindos desenhos contidos na obra.

Felipe Guga formou-se em design em 2005, embora tenha começado a desenhar desde que lhe entregaram papel e umas canetas. Nas suas ilustrações, amplamente divulgadas no Instagram, Guga assume um perfil espiritualista e de autoconhecimento, onde, através da representação da luz, o ilustrador transmite o amor e entendimento que adquiriu ao longo das suas experiências de vida. Em 2015, Felipe Guga lançou o seu livro de ilustrações pela Galera Record intitulado Sorria, você está sendo iluminado!, que reúne ilustrações famosas do designer antes publicadas em redes sociais.

É conhecida a função da luz na simbologia: tirar-nos da escuridão, brilhar nossos caminhos e espantar os fantasmas da noite. A luz, portanto, é o símbolo da divindade por excelência, do que é superior, claro e nítido. O vínculo entre o cristianismo e a luz são fortes, por exemplo, especialmente entre a figura do deus cristão e a luz, como consta em João 1:5: "E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas." Essa simbologia divina da luz é uma marca constante na obra de Felipe Guga, onde, como diz o próprio autor nos agradecimentos, o deus cristão é a luz mais brilhante e infinita de todas.

O livro é divido em cinco partes que são demarcadas por ilustrações: um fósforo, uma vela, uma lâmpada, um isqueiro e uma bugiganga que resulta em diferentes raios do espectro da luz. Evidentemente há nessa organização e nessas ilustrações a ideia de evolução, desde (1) um fósforo que queima através da dependência absoluta do oxigênio e cujo tempo de vida é curto demais, passando por (2) uma vela dependente de oxigênio com um período de vida maior que o do fósforo, chegando na (3) lâmpada que ilumina por tempo indeterminado, visitando o (4) isqueiro que, dentre as muitas funções, é uma luz que podemos carregar e acionar nas situações necessárias e culminando na (5) torneira elétrica que, através da simbologia da água que traz a tona o renascer, produz lindas e variadas formas de luz.


Na evolução dessas formas de produção de luz, resta-nos acreditar que estamos sendo representados, seja no fósforo que sacrifica a si mesmo e consome oxigênio para produzir luz, lembrando o desenho de Guga onde se afirma que a gratidão é o oxigênio da alma e que, deduz-se, apenas a partir da gratidão que podemos nos iluminar, ou seja na lâmpada que, entre todos os seus significados presentes na obra, pode ilustrar os ensinamentos do deus cristão, referenciando a frase "lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz para os meus caminhos". No final das contas, essa evolução das luzes pode representar a evolução da nossa fé através da religião, religião que vem do latim "religare" e significa religar. 

Mas é como dizia minha professora de literatura do segundo ano: não façam muitas inferências sobre obras de autores que ainda estão vivos, pois a qualquer momento eles podem se virar para vocês e dizer que não, "não foi isso que eu quis dizer". Um filho porém não se comporta na frente dos pais da mesma forma que se apresenta na frente dos amigos, portanto os autores devem entender que suas obras (seus filhos) assumem diferentes formas para diferentes indivíduos e, quanto a isso, nada podem fazer. A representação da luz como a divindade cristã que os adultos têm medo (temem a luz/temem a Deus) se fez viva em mim durante a minha leitura, resta saber se era isso que Guga queria dizer com a "luz".

Nas ilustrações de Guga, encontrei-me na que fala sobre esvaziarmos a lixeira que há em nós. Há algumas semanas antes de começar a leitura da obra, enquanto participava de uma dança circular de roda no São José Liberto (Museu Gemas do Pará), a condutora comentou sobre os malefícios de sermos depósitos de mágoas, lixeiras de rancor e estoques de ódio advindo de relações passadas. Na imagem encontrei as palavras da condutora e coreógrafa tão bem resumidas que compartilhei com amigos as minhas reflexões sobre o assunto e, nesse aspecto, as ilustrações do Felipe Guga são essenciais: elas são um convite à reflexão.

Há, nas ilustrações e frases de Sorria, você está sendo iluminado!, uma conexão que acontece em intensidades diferentes. Se você for mais espiritualista, cristão ou fã de livros de autoajuda, as ilustrações podem te ajudar a partir para discussões mais aprofundadas sobre nossas atitudes como seres humanos. Em contrapartida, se você preferir mais o lado da objetividade, a obra pode se destacar em suas mãos mais pelas belas ilustrações do designer carioca do que pelas frases de autoajuda. De todo modo, subjetivo ou objetivo, espiritualizado ou não, permita-se sorrir e se deixar iluminar: seja a luz que lhe ilumina alguma divindade ou seja essa luz autoconhecimento.

sábado, 26 de março de 2016

Travessuras da menina má - Mário Vargas Llosa

Título: Travessuras da Menina Má 

Título original: Travessuras de la niña mala

Autor: Mario Vargas Llosa

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

ISBN-13: 9788573028089

ISBN-10: 8573028084 

Ano: 2006 

Páginas: 302 

Editora: Alfaguara




Após seis anos de graduação somados a um ano e meio de intercâmbio, concluí, enfim, o curso de Ciência da Computação no início desse ano. Dentre as felicitações e os presentes, ganhei dos amigos um livro de um autor peruano premiado: Mario Vargas Llosa. O conhecia bem pouco até então por causa de uma referência ao seu livro Guerra do fim do mundo no prólogo da edição especial de 30 anos de Viva o povo brasileiro do João Ubaldo Ribeiro, onde o escritor e editor Rodrigo Lacerda afirma nas primeiras páginas que Viva o povo brasileiro faz par com Cem anos de solidão do Gabriel Garcia Marquez e Guerra do fim do mundo do Llosa. 

Evidente que se alguém diz que um livro está no mesmo patamar que Cem anos de solidão, prontamente lerei a obra em questão e procurarei saber mais sobre o autor, mas por artimanha do destino e desejo dos amigos outro livro do Llosa veio parar nas minhas mãos: Travessuras da menina má.

Na contra-capa uma dúvida é suscitada: qual é a verdadeira face do amor? Não sabemos de início, mas a narrativa dramática e cômica de Llosa nos apresenta diferentes faces em diferentes lugares do mundo que nos levam a traçar os caminhos percorridos por uma relação de amor conturbada.

Travessuras da menina má cruza quatro décadas de um amor cheio de tormentas, não correspondido e obsessivo. Os protagonistas são uma menina má, que tem em mente a vívida imagem do que não quer ser e do que com certeza quer se tornar, um menino bom, perdidamente apaixonado por ela, e uma série de cidades onde os personagens vivem sua relação turbulenta. Nessa viagem proporcionada pela leitura, o leitor conhece a tradicional cidade de Lima no Peru nos anos 50, a Paris boêmia dos 60, a Londres hippie dos 70 e a movimentada e multicultural Madrid dos anos 80. Os protagonistas se encontram e se desencontram numa relação de veneração que o personagem principal possui pela menina má.

No relacionamento entre Ricardito e a menina má, não é sensato apontar culpados. Ele, talvez, por persistir em um amor obsessivo sem futuro algum? Ela, quem sabe, por explorá-lo materialmente e espiritualmente? Tradutor profissional, Ricardo Somocurcio alcançou uma grande meta em sua juventude: viver em Paris na década de 50, a capital do mundo. É em Paris, porém, onde ele vai reencontrar o seu amor adolescente, a menina má, e irá se viciar num relacionamento atípico, onde de um lado há doação e do outro há procura e sarcasmo. Nas ilusões do amor, Ricardito engana o próprio coração que se despedaça e se reconstrói inúmeras vezes a cada novo capítulo.

No seu romance, Llosa constrói uma reflexão sobre a demência que pode ser o amor, sobre o seu caráter irracional e a sina inerente a este sentimento: histórias com finais tristes. Aos relacionamentos que terminam bem, fica a dúvida se houve o amor e não apenas um pacto honrado entre os envolvidos para que se fortificasse ainda mais o costume da companhia que se alinha com o instinto natural de não sobreviver na solidão. A obra  também funciona como uma radiografia da paixão: como é possível amar a uma mulher que jamais baixa a guarda de sua impenetrável barreira contra os sentimentos? 

Nos assuntos da paixão, só nós sabemos de nós.
“E, com sua personalidade gélida, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com seu poder infinito sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de apagar em dois minutos de conversa.”
Além de ser um romance amoroso, o autor se preocupa em registrar a história do Peru em retalhos que chegam a Ricardito por cartas ou noticiários: os golpes de Estado, as guerrilhas e a falta de esperança de uma nação, conferindo a história um tempero adicional que nos faz lembrar romances históricos e políticos. De encontros em desencontros, um pouco de história surge na narrativa de Llosa.

Lê-se Travessuras da menina má com avidez crescente, o que confirma que Mario Vargas Llosa é um tesouro da literatura latino-americana e um mestre no ofício de escrever. Na sua história, os temas recorrentes da paixão e da desilusão ressaltam as dores de Ricardito, mas também podem mexer com as dores daqueles que já passaram e sobreviveram nas mãos de uma menina má - ou menino mal, por que não? 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Demian - Hermann Hesse

Título: Demian

Autor: Hermann Hesse

Tradutor: Ivo Barroso

Editora: José Olympio

Edição: 46ª 

Ano da edição: 2015 

Ano da publicação original: 1919

Páginas: 196




Hermann Hesse é um daqueles nomes que vez em outra você: (1) ouve os amigos idolatrarem no barzinho, (2) anota no celular para buscar na Internet depois e (3) acaba, para infortúnio tão somente seu, deixando que tudo caia no esquecimento. Como se o destino, porém, decidisse que esse fluxo contínuo estava ultrapassado e que já estava mais do que na hora de eu conhecer a literatura do Hesse, um dos seus livros caiu nas minhas mãos em forma de cortesia. Não resistindo a tentação que se fazia viva diante de mim, dei uma pausa nas outras leituras e iniciei Demian que, ainda que "pequeno" quanto ao número de páginas, fez-se gigante em minhas mãos.

No fim da I Guerra Mundial o escritor alemão Hermann Hesse (1877 - 1962) publicou Demian, livro que escreveu entre os meses de setembro e outubro de 1917. Logo após, durante a Segunda Guerra Mundial, Hesse foi expedido para a cidade de Berna, onde trabalhou com prisioneiros de guerra. Nessa época Hesse passou por uma crise existencial que somava tormentas passadas de sua vida como a morte de seu pai, a doença grave de seu filho e demência de sua esposa. Por conta disso, Hesse foi exonerado e forçado a passar por terapia psiquiátrica. Nas sessões psiquiátricas, o seu analista, Carl Gustav Jung, o fez descobrir um mundo totalmente novo.

Carl Jung influenciou Hermann que, por sua vez, fez com que essa influência reverberasse em Demian, onde diversos conceitos e ensinamentos aprendidos com Jung se fazem presente. Na primeira edição da obra, Hesse se utilizou do pseudônimo Emil Sinclair para publicar seu livro, sendo que Sinclair também é o protagonista da história, o que dá a obra características autobiográficas, visto que Sinclair, como Hesse, inicia um caminho de dualidades que culminam com a descoberta de si. Desde as primeiras páginas, a história descreve a dualidade entre os mundos da "luz" e da "escuridão", deixando claro que, no início, Sinclair pertence exclusivamente ao mundo da luz e da religião, embora o mundo da escuridão esteja sempre a espreita, observando Sinclair de longe.
“...podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.”
Na escola, Sinclair conhece Max Demian, companheiro de sala de aula que, após proteger Sinclair de sofrer bullying, estreita cada dia mais os laços de amizade entre os dois personagens. No decorrer da história, Sinclair começa a experimentar uma espécie de idolatria por Demian, que tem, por sua vez, uma grande influência sobre Sinclair por causa de sua personalidade observadora e perceptiva, sempre oscilando entre o bem e o mal, a luz e a escuridão. A obsessão por Demian não chega a ser a nível de romance, mas dada a influência que Demian tem em Sinclair, tomei a liberdade de classificar a relação dos dois como um bromance de extrema importância para o desenvolvimento pessoal de Sinclair.

Demian é um romance rico em conceitos provenientes da psicologia analítica de Jung, caracterizando-se como um Bildungsroman, romance em que são expostos processos de desenvolvimento físico, psicológico ou moral. A narrativa orienta jovens nos seus tempos de busca, nas suas perguntas não respondidas e nas suas inquietações. Hesse nos introduz a um mundo de auto-conhecimento, onde os fins espirituais são o eixo que rege o romance. A história, além de ser explicada ou analisada, deve acima de tudo ser visualizada como uma série de transformações em Sinclair que o levam a quebrar a sua casca para alçar voo, ou seja: deve ser entendida como sendo a própria história do homem.