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O EPITÁFIO


Elder Ferreira

Experiências fotográficas: visita às comunidades remanescentes de quilombos em Salvaterra, Pará


O Instagram, além de servir de depósito de selfies e fotos do pôr-do-sol, também pode ser utilizado como portfólio fotográfico. Foi transformando a minha conta na rede social em portfólio que atravessei rios e baías amazônicas até a Ilha do Marajó para fotografar oito comunidades remanescentes de quilombos: Providência, Deus Ajude, Caldeirão, Boa Vista, Siricari, Pau Furado, Bacabal e Bairro Alto. A convite de uma amiga que fiz na época em que eu estava no cursinho pré-vestibular e que se encantou pelas minhas fotos no Instagram, coloquei a minha câmera, lentes, baterias e tripé na mochila e às 6h da manhã do dia 13 de outubro entrei num barco e assisti Belém ficar para trás enquanto a Amazônia marajoara se engrandecia à minha frente.

A aventura fotográfica fez parte de um projeto de extensão realizado por docentes e discentes de estatística, ciência da computação, geografia, nutrição e enfermagem da Universidade Federal do Pará (UFPA). As atividades executadas nas comunidades quilombolas foram promovidas pelo Laboratório de Sistema de Informação e Georreferenciamento (LASIG) em parceria com o Grupo de Estudos e Pesquisas Estatísticas e Computacionais (GEPEC), que juntos desenvolvem trabalhos de extensão entre o grupo acadêmico e a comunidade com objetivo de beneficiar os alunos no seu desenvolvimento profissional e trazer soluções que visem melhores condições para a população.

Ainda na manhã do dia 13, as águas agitadas da Baía do Marajó me preparavam para a correria que seria visitar oito diferentes comunidades no intervalo de quatro dias. O check-in na pousada onde se hospedaram os estudantes aconteceu por volta do meio-dia. Após um banquete ligeiro e alguns minutos de descanso, as incursões fotográficas começaram na tarde do mesmo dia pela comunidade mais distante das oito, a comunidade remanescente de quilombos de Providência, e culminaram na manhã do dia 16 com uma mais próxima da cidade de Salvaterra, a comunidade remanescente de quilombos de Bacabal.

Antes de começar a falar das comunidades, porém, é importante explicá-las para aqueles que desconhecem o termo "quilombos". No Brasil, há comunidades rurais negras que são uma continuidade de um processo da história da escravidão, onde comunidades de fugitivos das crueldades impostas pelos senhores de escravos se formaram. A essas comunidades formadas por negros fugitivos deu-se o nome de "quilombos" e as comunidades rurais negras que se originaram desses espaços são denominadas "comunidades remanescentes de quilombos".

Na perspectiva historiográfica, várias imagens foram produzidas para entender os quilombos: a visão culturalista, que pensou os quilombos tão somente como resistência cultural ao processo de opressão, e a visão materialista, que apresentou os quilombos como principal característica da resistência escrava aos castigos e maus-tratos senhoriais. As duas visões, aquela que reforçava a perspectiva culturalista e aquela materialista, acabaram produzindo uma ideia de 'marginalização' dos quilombos, apresentando-os como mundos isolados, ora de resistência cultural, ora de luta contra o escravismo. 

Não tão isoladas como imaginavam os historiadores do século XX, algumas comunidades remanescentes de quilombos dos dias atuais estão até mesmo inseridas em áreas urbanas e suburbanas. A resistência, porém, continua, mas não aos maus-tratos senhoriais que não mais existem, e sim a omissão do poder público no que tange temas como saneamento básico, educação e acesso aos serviços de saúde. Teria o senhor das crueldades se metamorfoseado no estado omisso? Fica aí o questionamento. E enquanto eu me questionava, também me preparava para sutilmente fazer com que essas críticas sociais fossem refletidas nos registros a serem feitos pela minha câmera.

A prática da fotografia, como afirma Sontag em "On Photography" (1977), requer que o fotógrafo entre na mortalidade, vulnerabilidade e mutabilidade do próximo. A entrada no universo do próximo é dificultada caso não aconteça determinado nível contato entre quem está sendo fotografado e o fotógrafo. Como o meu objetivo era atravessar essa porta de maneira amigável e até mesmo ser convidado para adentrar na realidade dos quilombolas, em diversos momentos das visitas interagi com os locais e acabei aprendendo "por altos" como se faz farinha, tapioca e tucupi a partir da planta da mandioca, como se dá o processo de calafetagem de barcos, processo a mim explicado por completo pelo seu Maurício da comunidade de Bairro Alto, e como que se cuida das hortas, se livra das pragas e se garante uma renda extra por meio da venda de hortaliças.

  • Bairro Alto, Pará
  • Bairro Alto, Pará
  • Caldeirão, Pará Caldeirão, Pará
  • Providência, Pará Providência, Pará
A minha participação na atividade de extensão estabeleceu uma conexão entre o observador, que era eu, e os quilombolas que abriram as portas das suas casas e me falaram das suas histórias de alegria e de intempéries, intempéries por qual passam frequentemente quando o básico significa abundância e o pouco às vezes quer dizer quase nada. A necessidade de estabelecimento de agentes de transformação social, seja esse agente o estado, a universidade ou mesmo os próprios moradores das comunidades é essencial para articular programas que promovam melhorias sociais, pois enquanto do lado de cá somos bombardeados de maneira veloz pelas vantagens da modernidade, do lado de lá comunidades rurais inteiras são mantidas congeladas no tempo.

No final, mais de mil registros foram feitos nesses quatro dias, registros que farão parte de uma exposição fotográfica que acontecerá nas comunidades nesse mês de novembro durante a semana da consciência negra e ficarão disponíveis como resultado do meu trabalho no projeto, podendo ser utilizados no futuro pelos organizadores e discentes que estavam envolvidos na atividade de extensão. Alguns registros podem ser encontrados no meu Instagram (@elderferreiras) e na minha página do Facebook, Elder Ferreira Photography.

Finalizada a experiência, guardei os equipamentos fotográficos na mochila e voltei para a cidade embalado nas ondas da Baía do Marajó. Logo que desembarquei em Belém, senti falta de imediato das comunidades rurais de Salveterra, pois se lá me cumprimentavam com sorrisos e me ofereciam xícaras de café, na cidade fui recepcionado apenas por um desinteressado: "Vai querer táxi, senhor?".